Há lugares que guardam histórias mesmo quando ninguém as conta. Há águas que atravessam cidades, mas também lembranças, afetos e modos de pertencer. É a partir dessas relações entre memória, território e imagem que nasce "Margem de Terra", residência artística que inicia suas atividades na próxima terça-feira (1º), às 19 horas, no Espaço Ladeira, no Centro de Vitória.
A abertura da ação que recebe incentivo da Lei Rubem Braga, será marcada por uma roda de conversa com as artistas residentes Ana Follador, Jessica Barcellos Bastos, Jéssica Sampaio e Yurie Yaginuma, sob mediação da artista, pesquisadora e mentora Thais Graciotti. O encontro será presencial e gratuito, dando início a uma trajetória de pesquisa e experimentação que se estenderá até março de 2027.
Idealizado por Ana Follador, o projeto investiga os atravessamentos entre corpo, cidade, memória e identidades territoriais por meio da videoarte. A proposta parte da própria experiência da artista, que desenvolve pesquisas relacionadas à memória e à infância e encontra nas imagens e no território caminhos para revisitar vivências e construir novas narrativas.
"O próprio nome do projeto nasce de uma imagem geográfica: margem é a faixa de terra que tangencia as águas. Em 'Margem de Terra', essa definição ganha outras camadas e passa a falar também dos territórios vividos, das lembranças que permanecem e das relações construídas entre as pessoas e a paisagem", descreve Ana.
Seu último trabalho intitulado "Tenho passado os últimos meses pensando sobre os retornos" (2025) é composto por uma videoarte com duração média de 5 minutos. No vídeo, Follador revisita 'Praia Grande', bairro do município de Fundão, local onde passou parte da infância com sua família. A obra dialoga com as memórias que emergem a partir da revisitação a esse local de rememoração pessoal. Esse trabalho foi o pontapé para a escrita do projeto cultural "Margem de terra".
Durante três meses, as artistas estarão em imersão no Espaço Ladeira, utilizando o suporte videográfico como campo experimental. A residência também terá ateliês abertos, aproximando a comunidade dos processos de criação e permitindo que o público acompanhe de perto as pesquisas desenvolvidas.
Na segunda etapa, a proposta chega ao CRJ São Pedro, onde será realizado, em janeiro de 2027, um ateliê colaborativo de práticas em videoarte voltado a jovens de 14 a 29 anos. Os encontros semanais serão mediados pela arte-educadora Ingrid Salles e pelas artistas residentes, tendo a arte socialmente engajada como eixo metodológico.
Entre águas memórias e territórios
A pesquisa toma como referência a região metropolitana capixaba e os territórios banhados pelas bacias dos rios Reis Magos, Santa Maria da Vitória, Jucu e Guarapari.
"Margem de Terra surge do desejo de investigar como nossas memórias afetivas e marcas de apagamento ou pertencimento se inscrevem no território. A água que cerca a metrópole capixaba constrói pontes e margens que atravessam os nossos corpos. A residência e as práticas compartilhadas no CRJ São Pedro buscam expandir a videoarte para além do suporte técnico, tornando-a um espaço vivo de escuta, experimentação narrativa e criação coletiva", completa a idealizadora.
Ao longo da residência, o público poderá acompanhar encontros e processos de criação. O encerramento, previsto para março de 2027, reunirá palestra pública, apresentação dos resultados e exibição das videoartes produzidas durante as imersões. Na ocasião, também será lançado o livro-catálogo "Margem de Terra", publicação que reunirá ensaios, registros dos processos criativos e fotogramas das obras realizadas.
A programação terá recursos de acessibilidade comunicacional, com intérprete de Libras nas atividades públicas e legendagem descritiva nas obras em vídeo. A classificação indicativa é livre.
Serviço
Residência Artística "Margem de Terra" - Abertura e roda de conversa