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Vitória é pioneira no adestramento de cães vítimas de abandono e maus-tratos

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Por Michelle Moretti (msmorettieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes


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Gaia recupera, passo a passo, a confiança e a segurança durante o processo de ressocialização.
Gaia recupera, aos poucos, a confiança e a segurança durante o processo de ressocialização.
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Brutus participa das atividades de adestramento e ressocialização realizadas pela equipe de Bem-Esta
Brutus participa das atividades de adestramento e ressocialização realizadas pela equipe de Bem-Estar.

Durante muito tempo, aproximar-se de Gaia era quase impossível. Marcada por experiências que deixaram sinais no comportamento, a cadela não permitia a entrada dos profissionais em sua baia sem contenção. O toque era uma ameaça, a guia não podia ser colocada e até os cuidados mais simples exigiam cautela.

Dez meses depois de chegar ao acolhimento, a história começou a mudar. Gaia aceita carinho, caminha na guia e circula tranquilamente pelo espaço. Ainda há limites a respeitar, mas agora também existe confiança -- algo que, para ela, precisou ser reconstruído passo a passo.

A transformação faz parte de um trabalho pioneiro desenvolvido pela Prefeitura de Vitória. Atualmente, 30 cães acolhidos pelo município participam de atividades de adestramento e ressocialização. São animais com alterações comportamentais que precisam recuperar a segurança e aprender novas formas de convivência antes de serem encaminhados a uma família.

Gaia é uma cadela sem raça definida, com características de pitbull, e tem entre 4 e 5 anos. Quando chegou, não permitia manipulação física, colocação de guia ou condução. A limpeza da baia, a oferta de água e a alimentação precisavam ser realizadas com cuidados especiais.

Hoje, os tratadores conseguem entrar no espaço, tocá-la e conduzi-la. Para quem antes respondia à aproximação com medo e defesa, cada avanço representa uma conquista silenciosa, mas imensa.

Vitória é pioneira no Estado e mantém 30 cães em ressocialização

O trabalho é desenvolvido pela Prefeitura de Vitória, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semmam). A iniciativa torna a capital pioneira no Espírito Santo na ressocialização de cães acolhidos pelo poder público e incorpora a recuperação comportamental à preparação para a adoção.

A proposta não se resume ao ensino de comandos. O objetivo é compreender o que cada animal viveu, identificar seus gatilhos, reduzir o estresse e a ansiedade e ajudá-lo a estabelecer relações mais seguras com pessoas, outros cães e o ambiente.

"O trabalho de adestramento vai muito além de ensinar comandos. Estamos falando de comportamento, de reduzir o estresse e a ansiedade, melhorar a comunicação entre o animal e as pessoas e, principalmente, preparar esses cães para uma convivência mais equilibrada e para uma adoção responsável", destaca Katiuscia Oliveira, gerente de Bem-Estar Animal.

Segundo ela, não existe uma fórmula única. "São animais que chegam após situações de abandono, maus-tratos ou experiências que deixaram marcas em seu comportamento. Por isso, o objetivo não é simplesmente cobrar obediência. É preciso compreender cada animal, identificar suas necessidades e trabalhar de forma técnica e individualizada", explica.

Quando a ferida não aparece no corpo

Nem toda marca deixada pelo abandono pode ser vista. Algumas aparecem na dificuldade de aceitar uma guia, na reação diante de uma mão estendida ou no medo de dividir espaço com outro animal.

O resgate, portanto, não termina quando o cão recebe atendimento veterinário e suas feridas físicas cicatrizam. Também é preciso cuidar daquilo que ficou escondido: a insegurança, a ansiedade e a dificuldade de confiar novamente.

Para o médico-veterinário Marcelo Carvalho, esse processo é essencial para devolver qualidade de vida aos animais: "O adestramento e a ressocialização têm impacto direto no bem-estar desses animais. Quando conseguimos reduzir o estresse e a ansiedade, melhoramos também o manejo, a interação com as pessoas e o próprio comportamento do cão. Isso faz com que ele esteja mais preparado para conviver em um ambiente familiar e aumenta suas possibilidades de adoção", explica.

Pitbull: comportamento não pode ser definido apenas pela raça

A trajetória de Gaia também confronta o preconceito contra cães identificados como pitbull ou que apresentam características físicas semelhantes. Muitas vezes, esses animais são julgados antes mesmo de terem a oportunidade de mostrar quem são.

"Existe um estigma muito forte em torno do pitbull, como se a raça, sozinha, determinasse que aquele cão será agressivo. Comportamento é muito mais complexo do que isso. Existe influência genética, mas também têm um peso enorme a socialização, o ambiente, as experiências ao longo da vida, o manejo e a relação estabelecida com as pessoas. Por isso, não é correto definir o comportamento de um cão simplesmente pela raça", afirma Marcelo.

O veterinário explica que a força física deve ser considerada no manejo, mas não pode ser confundida com agressividade: "Quando falamos de cães fortes, precisamos considerar o potencial físico daquele animal e trabalhar sempre com responsabilidade. Mas força física não pode ser confundida com uma sentença de agressividade. Um cão que recebe socialização adequada, manejo responsável e estímulos corretos tem uma história muito diferente de um animal submetido ao isolamento, à negligência ou a experiências negativas", diz.

Gaia é um exemplo dessa diferença: "Ela chegou até nós com comportamento reativo, após uma agressão sofrida pelo antigo tutor. Se atribuíssemos isso à raça, ignoraríamos tudo o que existe por trás daquele comportamento e a possibilidade de trabalhá-lo. A evolução dela mostra a importância de compreender o indivíduo e identificar o que desencadeia determinadas respostas", acrescenta.

Ressocialização também abre caminho para a adoção

Ao acompanhar a evolução de cada cão, a equipe consegue compreender melhor seus limites, suas necessidades e o tipo de ambiente em que poderá viver com mais segurança.

Esse conhecimento é fundamental para aproximar o animal da família adequada e reduzir o risco de uma adoção malsucedida ou de uma devolução.

"Um animal que não permite aproximação ou apresenta dificuldades importantes de interação acaba tendo menos oportunidades de adoção. Quando trabalhamos essas questões de maneira técnica, conseguimos melhorar sua capacidade de convivência e buscar uma família compatível com suas características", destaca Marcelo.

Acolhimento é passagem, não destino

Gaia está acolhida há aproximadamente dez meses. O tempo revela tanto a complexidade de sua recuperação quanto a importância de evitar que um espaço criado para ser temporário se transforme em moradia definitiva.

O acolhimento oferece proteção, alimentação, atendimento veterinário e a possibilidade de recomeço. Mas o destino esperado é outro: uma casa, uma rotina e pessoas dispostas a respeitar o tempo de cada animal.

Além de mudar a vida do cão, a adoção também libera espaço para que outros animais em situação de vulnerabilidade sejam resgatados.

"Quando reduzimos o estresse e melhoramos o comportamento, aumentamos as chances de adoções compatíveis, diminuímos o risco de devolução e reduzimos o tempo de permanência no acolhimento. Não se trata apenas de ensinar um cão a se comportar, mas de criar condições para que ele tenha uma nova vida em família", afirma Marcelo.

A família certa

Gaia ainda precisará de uma família preparada para compreender seu passado e respeitar seus limites. A adoção deverá ser acompanhada pela continuidade de um manejo baseado em segurança, paciência e afeto.

"O que buscamos é um animal mais seguro, equilibrado e com melhores condições de convivência, aumentando suas possibilidades de encontrar uma família e permanecer nela. Cada animal tem uma história. Quando conseguimos transformá-la por meio do cuidado, da técnica e da paciência, estamos construindo uma nova possibilidade de vida", afirma Katiuscia.

Para Gaia, isso significa encontrar alguém que não espere uma mudança imediata, que reconheça cada pequeno avanço e entenda que confiança não se impõe. Ela é construída.

Abandono é crime e deixa marcas

Abandonar um animal pode deixar consequências que permanecem mesmo depois do resgate. Nas ruas, cães e gatos ficam expostos à fome, à sede, a doenças, atropelamentos e violência.

Ter um animal é assumir uma responsabilidade para toda a vida: oferecer alimentação, vacinação, atendimento veterinário, segurança, companhia e cuidados também durante a velhice ou em momentos de doença.

Maus-tratos são crime. O artigo 32 da Lei Federal nº 9.605/1998 criminaliza atos de abuso e maus-tratos contra animais. Para cães e gatos, a Lei Federal nº 14.064/2020 estabelece pena de dois a cinco anos de reclusão, multa e proibição da guarda em casos de abuso, maus-tratos, ferimento ou mutilação.

Em Vitória, a Lei Municipal nº 8.121/2011 também proíbe o abandono. Denúncias podem ser formalizadas pelo Fala Vitória 156 ou pelos canais oficiais do Bem-Estar Animal.

Gaia ainda espera pelo próximo capítulo

Dez meses depois de chegar ao acolhimento, Gaia ainda carrega as marcas do que viveu. Mas já não é a mesma cadela que se escondia atrás da defesa e não permitia que ninguém se aproximasse.

Hoje, ela aceita o toque, usa guia e caminha pelo espaço. Aprendeu, pouco a pouco, que uma mão estendida também pode oferecer cuidado e que a presença humana nem sempre representa perigo.

A ressocialização abriu uma possibilidade que parecia distante quando Gaia chegou: deixar o acolhimento e viver em uma casa.

A família que a receber, porém, precisará enxergar além do medo que ela um dia demonstrou. Terá de respeitar seu ritmo, reconhecer suas conquistas e continuar o trabalho iniciado pela equipe que a ajudou a confiar novamente.

Gaia já percorreu uma parte difícil do caminho. Aprendeu a aceitar a aproximação, o cuidado e a companhia. Agora, espera por alguém disposto a fazer o restante do percurso ao lado dela.

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Jhonny é um dos cães acolhidos que recebem acompanhamento comportamental para uma futura adoção.
Jhonny é um dos cães acolhidos que recebem acompanhamento comportamental para uma futura adoção.
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Leona passa por atividades de ressocialização que ajudam a prepará-la para uma nova vida em família.
Leona passa por atividades de ressocialização que ajudam a prepará-la para uma nova vida em família.