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Dia da Moqueca Capixaba: sabor, cultura, história e identidade que atravessam gerações

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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes


Arquivo Público Municipal
Moqueca capixaba tradicional, acompanhada de pirão. Ambos em panelas de barro. 1999
Moqueca capixaba tradicional, acompanhada de pirão. Ambos em panelas de barro. (ampliar)
Leonardo Silveira
Processo de Queima da Panela de Barro
O preparo da moqueca capixaba na panela de barro é tão importante quanto os ingredientes. Ofício das Paneleiras de Goiabeiras, em Vitória (ES), é o primeiro bem cultural registrado pelo IPHAN, em 2002 (ampliar)

Uma receita que atravessa séculos e é preparada com cultura e identidade, a moqueca capixaba é um dos mais importantes símbolos culturais do Espírito Santo. Para preservar e valorizar a história deste prato cheio de cor, cheiro e sabor, foi criado o Dia da Moqueca Capixaba, celebrado em 30 de setembro.

A origem da moqueca está relacionada às antigas formas indígenas de preparar alimentos, à pesca, ao manguezal, à produção artesanal das panelas de barro e à formação cultural do território capixaba.

Os marcos documentais ajudam a acompanhar essa trajetória: os registros coloniais do moquém no século XVI; a descrição das panelas de barro de Goiabeiras por Saint-Hilaire em 1815; o reconhecimento do Ofício das Paneleiras pelo Iphan em 2002; a instituição da moqueca como comida típica do Espírito Santo em 2003; a Indicação de Procedência das panelas de barro de Goiabeiras em 2011; a criação do Dia da Moqueca Capixaba em Vitória em 2012; e a instituição do Dia Estadual em 2013.

No Arquivo Público Municipal, há livros, estudos e documentos oficiais que contam como uma receita e práticas passadas de geração em geração tornaram-se parte da identidade cultural do Espírito Santo.

Registros históricos

Há muita discussão sobre a origem etimológica da palavra moqueca. Por isso, mais do que estabelecer uma raiz exata, estudos e documentos apontam para técnicas e ingredientes que foram associados ao prato ao longo do tempo.

Os registros mais antigos que nos dão pistas da criação remontam ao século XVI. Em uma carta de 1554, o padre Luís de Grã descreveu o uso indígena do moquém, uma técnica de assar alimentos sem acrescentar água ou caldo. Três décadas depois, em 1584, o padre Fernão Cardim registrou ter recebido dos indígenas "peixinhos de moquém", isto é, peixes assados. Em 1610, o padre Monteiro também descreveu o preparo de carnes no moquém.

A partir do século XVIII, os registros passam a associar as chamadas "moqueadas" às preparações de peixe. O moquém consistia, de maneira geral, no assado de alimentos envoltos em folhas e submetidos ao calor das brasas. Relatos do período colonial também descrevem o preparo de peixes em folhas e ervas, cobertos por cinzas quentes, permitindo o cozimento lento em seus próprios sucos.

Esses documentos registram uma técnica de preparo indígena. A associação com o moquém é recorrente na historiografia e na divulgação da culinária capixaba, mas é muito controversa também. A preparação atual preserva uma característica importante: o cozimento do peixe sem a adição de água, utilizando os próprios líquidos dos ingredientes, concentrando sabor e aroma. É nesse processo histórico de transformações e adaptações que se insere a receita capixaba.

Inseparáveis: a moqueca e a panela de barro

No Espírito Santo, o preparo na panela de barro é tão importante quanto os ingredientes da moqueca. Estudos arqueológicos relacionam a técnica utilizada até hoje pelas paneleiras de Goiabeiras a tradições indígenas, especialmente aos conjuntos Tupi-guarani e Uma, de mais de 200 anos.

Como todo produto cultural, essa técnica foi apropriada, transformada e transmitida ao longo de gerações, envolvendo diferentes grupos que ocuparam o território. Em Vitória, a produção tradicional dessas panelas está concentrada em Goiabeiras Velha.

Uma das primeiras referências documentais data de 1815, quando o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire passou pelo Espírito Santo. Ao descrever Goiabeiras, ele registrou a existência de panelas de terracota produzidas naquela localidade e utilizadas para torrar farinha.

O território integra a tradição, uma vez que a argila utilizada pelas paneleiras é retirada do Vale do Mulembá, na região noroeste de Vitória, há séculos, assim como o acabamento escuro característico das panelas é obtido com a aplicação do tanino extraído da casca do mangue-vermelho, associado ao manguezal da região.

A produção tradicional é feita sem torno e sem forno industrial. A argila é preparada, modelada manualmente, seca, alisada e posteriormente queimada em fogueiras a céu aberto.

Um patrimônio cultural brasileiro

O processo reúne matéria-prima, técnicas, instrumentos e conhecimentos transmitidos entre gerações. A importância desse conhecimento foi reconhecida nacionalmente em 20 de dezembro de 2002, quando o Ofício das Paneleiras de Goiabeiras tornou-se Patrimônio Cultural do Brasil. O ofício foi o primeiro bem cultural do país inscrito no Livro dos Saberes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

É importante enfatizar que o bem cultural é o saber-fazer das paneleiras: o conjunto de conhecimentos e práticas envolvidos na fabricação artesanal das panelas de barro. O registro foi revalidado pelo Iphan em 2021. Assim como nas casas das famílias capixabas, a panela de barro produzida em Goiabeiras é considerada indispensável e inseparável da moqueca.

Outro importante marco aconteceu em 4 de outubro de 2011: o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu à Associação das Paneleiras de Goiabeiras a Indicação de Procedência "Goiabeiras" para panelas de barro, delimitando uma área geográfica. Enquanto o Iphan reconhece e protege o patrimônio cultural imaterial associado ao ofício, o INPI possibilitou identificar a procedência - e a originalidade - das panelas produzidas naquela região.

Desta forma, a panela de barro carrega uma história própria, vinculada ao território de Goiabeiras, ao trabalho das artesãs e a práticas reconhecidas tanto no campo do patrimônio cultural quanto no da propriedade industrial (a Indicação de Procedência também é aplicada a produtos artesanais,protegendo-os)

Moqueca é capixaba!

O Dia da Moqueca Capixaba integra o calendário oficial do município desde 2012 (Lei Municipal nº 8.213/2012). A data escolhida é o aniversário do jornalista e escritor José Carlos Monjardim, o Cacau Monjardim, que popularizou a frase "Moqueca é capixaba, o resto é peixada".

Nascido em Vitória, em 1929, Cacau Monjardim teve forte atuação no segmento de turismo, alcançando o cargo de presidente da Empresa Capixaba de Turismo (Emcatur). Segundo relatos - não há registros oficiais -, a sua frase mais famosa foi criada na década de 1970, depois de uma viagem à Bahia, quando Cacau Monjardim presidia a Emcatur. A frase passou a ser utilizada na divulgação turística do Espírito Santo e se incorporou ao imaginário popular em torno do prato.

Uma cadeia produtiva ligada ao manguezal

A história da moqueca acompanha a relação dos capixabas com o mar, os rios e os manguezais. Em Vitória, essa relação é mais visível. O peixe chega à panela a partir de uma cadeia de trabalho ligada à pesca; a panela é produzida artesanalmente em Goiabeiras, às margens do manguezal, de onde saem vários dos insumos básicos.

O Iphan destaca que o Ofício das Paneleiras de Goiabeiras é uma prática predominantemente feminina, transmitida em caráter familiar e comunitário. Por tudo isso, falar da moqueca capixaba é também falar de uma prática que envolve famílias de pescadores, de cozinheiras, de artesãs e vários outros ofícios, além de comunidades que mantêm práticas relacionadas ao mar, ao manguezal e à produção artesanal.

 

Elizabeth Nader
Antes do Galpão das Paneleiras, a queima das panelas de barro era feita à beira do manguezal. 2003
Antes do Galpão das Paneleiras, a queima das panelas de barro era feita à beira do manguezal. (ampliar)
Elizabeth Nader
Duas paneleiras na beira do manguezal fazendo a queima das panelas de barro. 2003
Duas paneleiras na beira do manguezal fazendo a queima das panelas de barro. (ampliar)