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Solar Monjardim: o casarão que reuniu nobreza, políticos e artistas em 240 anos de história
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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes
Sobre uma encosta de Mata Atlântica, na face leste do Maciço Central, uma família aristocrática construiu um casarão no final do século XVIII. Sede da Fazenda Jucutuquara, o Solar Monjardim recebeu visitantes nobres como Dom Pedro II, em 1860. O imperador registrou em seu diário de viagem a imponência da chácara e a beleza da região.
Construído no período colonial, na década de 1780, o Solar Monjardim encantou a corte do Brasil Império, manteve-se imponente durante a República, testemunhou a formação do bairro Jucutuquara e a expansão urbana de Vitória. Por ser um dos raros exemplares da arquitetura rural colonial brasileira no litoral capixaba, tornou-se o primeiro imóvel tombado em nível nacional no Espírito Santo, em 1940.
O Arquivo Público Municipal possui muitos registros do casarão, que atualmente abriga o Museu Solar Monjardim. Ao longo dos séculos XX e XXI, ele passou por várias intervenções de conservação, restauro e adaptação. O museu é aberto à visitação e os visitantes encontram um acervo composto por ambientes e objetos que reconstituem o cotidiano de uma família abastada do século XIX.
Visitantes ilustres
A Fazenda Jucutuquara ocupava posição privilegiada entre Maciço Central e os vales da região, oferecendo uma vista panorâmica para a Baía de Vitória. A fazenda abastecia a capital com a produção de açúcar, algodão, milho, arroz, feijão, mandioca, cará, além das atividades pecuárias. O córrego Jucutuquara fornecia energia hidráulica para o funcionamento do engenho.
Durante uma expedição oficial à Província do Espírito Santo, em 1860, Dom Pedro II visitou o casarão. Nessas viagens, o imperador costumava escrever observações frequentemente críticas sobre a falta de estrutura e de embelezamento das regiões visitadas. Mas, sobre a Fazenda Jucutuquara e seu solar, ele registrou impressões muito positivas.
O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire e o príncipe Maximilian Alexander Philipp, do principado de Wied-Neuwied (atualmente, faz parte da Alemanha) também se hospedaram na fazenda no início do século XIX. Eles descrevem a residência como uma das mais belas da região. Segundo os relatos, o casarão era cercado por montanhas, vegetação abundante, áreas cultivadas, manguezais e trechos visíveis da baía de Vitória.
O Padre Diogo Antônio Feijó e o senador Nicolau dos Campos Vergueiro também se hospedaram no solar.
Uma sucessão de proprietários
Os padres da Companhia de Jesus foram os donos originais das terras da região. A propriedade passou para a Coroa Portuguesa após a expulsão dos jesuítas das colônias, em 1759, pelo Marquês de Pombal. Os bens confiscados dos jesuítas foram a leilão e lá o comerciante Gonçalo Pereira Pinto adquiriu as terras.
A fazenda foi dada como dote de casamento da filha de Gonçalo Pereira Pinto, Francisca de Sampaio Pereira Porto. Ela casou-se com o capitão-mor Francisco Pinto Homem de Azevedo, que assumiu a gestão e iniciou a construção do Solar na década de 1780.
Da mesma forma, o capitão-mor deu a fazenda como dote de casamento da filha única e herdeira Anna Francisca de Paula. Anna Francisca casou-se em 1816, com o coronel José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim. Aqui começa a história do Solar com a família Monjardim. Este é o dá o nome da rua lateral da Igreja do Carmo, no Centro Histórico de Vitória.
A família nobre família Monjardim
Da união do coronel e Anna Francisca nasceu Alpheo Adelpho Monjardim de Andrade Almeida, que recebeu, em 1889, o título de Barão de Monjardim. Este título ficou eternizado ao dar o nome da rua que dá acesso à Gruta da Onça.
O barão casou-se com dona Laurinda Luísa Pinto Pereira e teve três filhos diretamente envolvidos com a política capixaba. Argeu Hortênsio Monjardim, que foi vice-governador do Espírito Santo em 1904. Manoel Silvino Monjardim, médico, deputado federal de 1918 a 1923 e senador de 1924 a 1930. José Francisco Monjardim, comendador, foi membro da junta governativa capixaba de 1822-1824 e presidiu a província por 13 vezes, entre 1830 e 1860.
Após a morte da esposa, o barão casou-se com Dona Beatrice Poli Monjardim, com a qual teve dois filhos muito conhecidos dos capixabas: Adelpho Poli Monjardim e Américo Poli Monjardim, dois ex-prefeitos de Vitória.
Adelpho foi prefeito de Vitória por dois mandatos e deputado estadual em duas legislaturas. Escritor, historiador e geógrafo, deixou um legado intelectual e foi escolhido para dar nome à Bioblioteca Municipal.
Américo Poli Monjardim foi médico, professor, prefeito de Vitória em dois mandatos. Foi ele quem, em 29 de julho de 1941, assinou o decreto de criação da Biblio-Pinacoteca Municipal de Vitória, que anos mais tarde receberia o nome do irmão escritor.
Aristocracia capixaba e conglomerado paulista
Além de políticos influentes no estado, a família Monjardim também tem artistas de renome nacional. A cantora de renome internacional Maysa Figueira Monjardim é bisneta do Barão de Monjardim, descendente do casamento com a baronesa Laurinda Luísa Pinto Pereira.
Do casamento de Maysa com o industrial paulista André Matarazzo, em 1954, nasceu o diretor de televisão Jayme Monjardim. Registrado como Jayme Monjardim Matarazzo, ele é trineto do barão. O casamento representou a união da aristocracia tradicional capixaba e o império industrial paulista.
André era filho de Attilio Andrea Matarazzo, o Conde Andrea Matarazzo, e neto do Conde Francesco Matarazzo, imigrante italiano e patriarca da maior dinastia industrial da história da América Latina, responsável pela industrialização do Estado de São Paulo.
Trineto do Barão de Monjardim e bisneto do Conde Francesco Matarazzo, o diretor de TV é pai do ator Jayme Monjardim Matarazzo Filho, que usa o nome artístico Jayme Matarazzo.
Assim como os Matarazzo, estudos históricos indicam que a família Monjardim tem origem na Itália. Segundo documentos, o sobrenome original teria evoluído de Monte Giardino para Monjardino e posteriormente para Monjardim.
A fazenda nos projetos de expansão
A propriedade permaneceu ocupada pelos descendentes do Barão de Monjardim por mais de 100 anos. Porém, ao longo dos anos, a fazenda passou por sucessivos processos de herança, partilhas, vendas e desmembramentos da área original.
A expansão urbana de Vitória, a pressão por moradias, a expansão da malha viária e os desmembramentos da propriedade contribuíram para a formação do atual bairro de Jucutuquara. O processo ganhou força com a execução do projeto do Novo Arrabalde, elaborado pelo engenheiro Saturnino de Brito, que incorporou a área da antiga fazenda aos planos de expansão da capital.
Os terrenos que formavam a Chácara Barão de Monjardim, cujo último proprietário foi Manoel Francisco de Freitas Calazans, foram oficialmente loteados em 1954, por meio do Decreto Municipal nº 2.457, de 6 de fevereiro daquele ano.
Museu Solar Monjardim
O mais importante remanescente da arquitetura rural colonial do Espírito Santo e um dos raros exemplares preservados da arquitetura rural da América Portuguesa, o Solar Monjardim foi tombado pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) em 25 de outubro de 1940, sendo inscrição no Livro do Tombo das Belas Artes sob o nº 289, folha 50.
Ao longo dos séculos XX e XXI, o Solar Monjardim passou por várias intervenções visando conservação, restauro e adaptação. Em 1942, administrado pelo Governo do Estado, o casarão abrigou o Museu Capixaba. Em 1964, administrado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), passou a abrigar o Museu de Arte e História, com arte sacra e história capixaba.
Em 1966, o solar recebeu o acervo do Museu de Arte Religiosa do Espírito Santo e passou a ser conhecido como Museu de Arte e História da Ufes, que funcionou até 1969. A União revelou interesse pela preservação definitiva do imóvel, que foi finalmente adquirido pela Fundação Nacional Pró-Memória na década de 1970.