Prefeitura de Vitória

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Rua Sete de Setembro: um local que pulsa economia, cultura e memórias no coração de Vitória

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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes


Arquivo Público Municipal
À dir. Rua Maria Saraiva. À esq. muro da 1ª Ig. Presbiteriana. Ao fundo, Fonte Grande.
À dir. Rua Maria Saraiva. À esq. muro da 1ª Ig. Presbiteriana. Ao fundo, Fonte Grande.
Arquivo Público Municipal
Esta pedra deu lugar à Escadaria São Diogo. Década de 1920.
Esta pedra deu lugar à Escadaria São Diogo. Década de 1920.

A Rua Sete de Setembro retrata muito bem a evolução urbana e cultural de nossa cidade. Até o final do século XIX, era apenas uma passagem na mata para os fundos de chácaras tradicionais. Foi urbanizada e recebeu marcos históricos como a Fonte Grande, a antiga Convertidora e o Teatro Melpômene. Transformou-se em  em um agitado endereço político, boêmio e comercial, onde foram construídos a Prefeitura de Vitória, o primeiro calçadão de pedestres e, a primeira galeria com escada rolante, muito antes dos shopping centers.

Esta importante rua do Centro Histórico será revitalizado: mais um motivo para moradores e turistas conhecerem melhor a R7, que tem, de um lado, a Baía de Vitória e, do outro, o maciço da Fonte Grande -- história e natureza em uma paisagem única. 

No Arquivo Público Municipal, documentos históricos, fotografias, jornais e plantas arquitetônicas permitem a reconstrução de cada fase da história desta rua. 

Uma rua de muitas histórias

Tudo começou com um caminho pelos fundos das chácaras do Vintém, Nascimento e Mulundu, ligando a Prainha, no Largo da Conceição (a atual Praça Costa Pereira já foi uma enseada), à Fonte Grande. Popularmente chamada de Rua do Reguinho, era uma via sem calçamento, marcada pelas águas do córrego do Requim, que foram canalizadas em 1895. Esse aterro foi um dos primeiros da uma fase de reformas urbanas, voltadas a melhorar as condições sanitárias e a embelezar a paisagem da capital.

O nome oficial foi dado em 1872, na comemoração dos 50 anos da Independência do Brasil. Mas só se tornou popular com a solenidade cívica em 1922, no Centenário da Independência, quando o presidente do Estado, Nestor Gomes, e o prefeito Antônio Pereira Lima assentaram um marco da Rua Sete de setembro junto ao antigo Teatro Melpômene.

No início do século XX, a urbanização da cidade estava em franca expansão. O bonde subia a Rua Sete em direção à Convertidora, e a via se consolidava como eixo de serviços públicos. Foi ali que a Prefeitura de Vitória instalou sua sede, em prédio projetado pelo arquiteto Joseph Pittlick e construído em 1925 pela firma Politi, Derenzi & Cia. A rua, que antes era apenas passagem, tornava-se centro administrativo e símbolo da modernidade.

A partir dos anos 1950, a Rua Sete de Setembro ganhou status de "shopping a céu aberto", reunindo lojas de armarinho, cama e mesa, prataria, cristais, alfaiatarias e grifes de roupas que ditavam tendências. Nos anos 1960, tornou-se ponto de encontro social e cultural, onde morar era sinônimo de prestígio. Bares, restaurantes e galerias consolidaram a vocação boêmia da rua, atraindo jovens, artistas, intelectuais e jornalistas -- como no lendário Britz Bar, frequentado por artistas, políticos e jornalistas dos antigos O Diário e do Jornal da Cidade.

Em 1975, no Edifício Antares, foi inaugurada a primeira escada rolante de Vitória, na época um marco de inovação. Nesse mesmo ano, com a saída da sede da Prefeitura para o atual Palácio Jerônimo Monteiro, na Avenida Beira-Mar, o trecho entre as praças Costa Pereira e Ubaldo Ramalhete Maia passou por uma grande reforma e foi transformado em calçadão exclusivo para pedestres, com pedras portuguesas, canteiros e bancos. Essa intervenção reforçou a identidade da Rua Sete como espaço de convivência, lazer e economia, antecipando tendências que hoje se espalham por todo o Estado.

Mais do que um logradouro, a R7 é um endereço de memórias muito presentes entre os moradores, de relevância comercial e cultural, pulsando no coração de Vitória. Conheça os principais marcos:

A Fonte Grande

No alto da rua, havia a Fonte do Conselho do Reguinho, nascente de água pura entre granitos sob guarda dos monges beneditinos. Isto, em meados do século XVI, quando Luíza Grimaldi governou o Espírito Santo e doou sua residência, na atual Ladeira São Bento, aos monges. O nome Fonte Grande foi oficializado no século XIX. O desmatamento e a construção de residências no entorno fizeram a água quase desaparecer. Intervenções da Prefeitura possibilitaram a preservação da fonte, que ainda existe.

Teatro Melpômene

Inaugurado em 1896, foi projetado pelo engenheiro italiano Felinto Santoro e tornou-se a mais importante sala de espetáculos da cidade no final do século XIX. Todo feito em madeira. Recém-chegado da Itália, André Carloni, ainda menor de idade, trabalhou nesta construção. O teatro ficava onde hoje está o Hotel Império, na entrada da Rua Sete de Setembro, esquina com Graciano Neves. Após um incêndio, foi demolido 1925 para dar espaço para a ampliação da Rua Sete. Peças estruturais, como colunas, foram aproveitadas por André Carloni na construção do Theatro Carlos Gomes. A escolha do nome "Melpômene" remete à musa da tragédia na mitologia grega. 

Escadaria da Piedade

Construída nas primeiras décadas do século XX para ligar a parte baixa do Centro ao Morro da Piedade, a escadaria recebeu esse nome por estar próxima à Igreja de Nossa Senhora da Piedade. Com o tempo, o nome "Piedade" passou a identificar toda a região. Além de acesso físico, tornou-se ponto de encontro e compõe o cenário histórico do Centro, reforçando a identidade arquitetônica e cultural da região. Em janeiro de 2021, moradores e incentivadores da recuperação do Centro Histórico promoveram pinturas coloridas e alegres nos degraus, inspiradas na própria comunidade.

O bairro da Piedade é berço da escola de samba mais antiga de Vitória. A escadaria, por estar no coração desse território, é também associada às tradições carnavalescas e à vida comunitária.

A Convertidora e os bondes

No início do século XX, bondes subiam a Rua Sete rumo à Convertidora, uma edificação industrial dos anos 1920, erguida pela Companhia Central Brasileira de Força e Energia (CCBFE). Ali a energia elétrica era convertida para os bondes -- o meio de transporte popular, usado por trabalhadores, pelas famílias para irem às praias, por boêmios na madrugada e até para cortejos fúnebres da Catedral ao Cemitério de Santo Antônio. Em 1963/1964, a CCBFE foi encampada pela Eletrobras, e o serviço foi substituído por ônibus e carros. O prédio foi utilizado, posteriormente, pela concessionária de energia elétrica Escelsa e, atualmente, é a sede do Arquivo Público Estadual.

Prefeitura de Vitória

Criada em 1909 pelo governador Jerônimo Monteiro, a Prefeitura de Vitória ocupou um sobrado neoclássico na Rua Sete, onde funcionava a Câmara Municipal. O casarão foi projetado por Joseph Pittlick e passou por ampla reforma, sendo reinaugurado em 1927. Com a expansão da cidade e a criação de novos departamentos da administração municipal, nos anos 1970, o casarão ficou pequeno para abrigar toda a estrutura. Então, o prefeito Chrisógono Teixeira da Cruz (1971-1975) transferiu o Paço Municipal para a nova sede, na Avenida Beira-Mar, em Bento Ferreira.

1ª Igreja Presbiteriana

Ao lado da Escadaria da Piedade e quase em frente à Convertidora, está o templo da Primeira Igreja Presbiteriana Unida de Vitória, uma edificação eclética com características neogóticas, como as janelas em forma de ogivas e a torre sineira, comuns nas construções de natureza religiosa. Embora a igreja tenha sido fundada em 1928, o templo foi construído na década de 1940. Este prédio foi considerada bem de interesse histórico e unidade de preservação municipal no Plano Diretor Urbano de 1994. Desde então, ganhou iluminação cênica, destacando-se à noite, junto a monumentos como a Catedral Metropolitana e o Penedo.

Praça Ubaldo Ramalhete Maia

Foi construída no local da antiga sede da Prefeitura, que foi derrubada. No piso da praça, um mosaico em pedras portuguesas reproduz a fachada do casarão, evocando memórias dos antigos moradores. O nome da praça homenageia o advogado, político e procurador-geral do Espírito Santo. Nascido em Santa Leopoldina em 1882, governou o Estado por um breve período em 1946, e foi deputado federal em duas legislaturas. Faleceu em 1950, no Rio de Janeiro.

Edifício Joana D'Arc

Foi uma das experiências pioneiras de incorporação, realizada nos anos 1950. A empresa Coerfil construiu o prédio e a incorporação pertenceu a Selika Figueira Sarkis. Essa nova forma construtiva possibilitou maior riqueza nas soluções arquitetônicas, se comparada a outros prédios da mesma época. O edifício possui sete pavimentos residenciais. No térreo, abriga uma galeria comercial que liga a Rua Sete à Graciano Neves. Já foi o endereço de alfaiates da alta costura e de lojas de decoração.

Boemia no Britz Bar

Walter Britz, personalidade marcante na boemia capixaba, fundou o Britz Bar em 1961. O bar funcionou até 1983, como reduto de artistas, jornalistas e intelectuais. O fundador mantinha o espaço aberto a debates, encontros e manifestações culturais, mesmo nos tempos do Regime Militar. Também era famoso por reunir torcedores nas Copas do Mundo, quando ligava a TV e o rádio durante os jogos da Seleção Brasileira entre as décadas de 1960 e 1980. O bar tradicional foi fechado em 1983 e reaberto na Praia do Canto, onde funcionou até os anos 1990.

Referências:

DERENZI, Luiz Serafim. Biografia de uma ilha. Vitória: Secretaria Municipal de Cultura, Prefeitura Municipal de Vitória, 2019. Disponível em  https://ael.org.br/publicacoes_da_academia_espirito_santense_de_letras/biografia_de_uma_ilha.pdf Acesso em: 2 mar. 2026.

ELTON, Elmo. Logradouros antigos de Vitória. Vitória: Instituto Jones dos Santos Neves, 1986. (Coleção Temas Capixabas, v. 1).

FERRAZ, Camila Benezath Rodrigues. Devir-criança e infantilização pela Rua Sete em Vitória (ES): narrativas para a ilha rever. 2019. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) - Universidade Federal da Bahia, Salvador. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/000000 (repositorio.ufba.br in Bing). Acesso em: 3  mar. 2026.

INSTITUTO JONES DOS SANTOS NEVES. Bairros de Vitória: aspectos gerais. Vitória: IJSN, 2016. Disponível em: http://biblioteca.ijsn.es.gov.br/ConteudoDigital/20161026_aj20375_bairros_vitoria_geral02_.pdf. Acesso em: 5 mar. 2026.

Arquivo Público Municipal
Demolição do Teatro Melpômene e obra de dragagem da Rua Sete de Setembro. 1925
Demolição do Teatro Melpômene e obra de dragagem da Rua Sete de Setembro. 1925.
PaesArquivo Público Municipal
Antiga sede da Prefeitura de Vitória, hoje, Praça Ubaldo Ramalhete Maia. Década de 1930
Antiga sede da Prefeitura de Vitória, hoje, Praça Ubaldo Ramalhete Maia. Década de 1930.