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Mostra virtual revela a Vitória de 100 anos atrás preservada em raros negativos de vidro

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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes


Arquivo Público Municipal
Vista da Vila Rubim, com Santa Casa de Misericórdia e Igreja de São Thiago. Década de 1900
Vista da Vila Rubim, com a Santa Casa de Misericórdia e Igreja de São Thiago. Década de 1900. (ampliar)
Arquivo Público Municipal
Av. Florentino Avidos com a Rua Gal Osório (antiga R. do Comércio), no Parque Moscoso. Anos 1930
Av. Florentino Avidos com a Rua Gal Osório (antiga R. do Comércio), no Parque Moscoso. Anos 1930. (ampliar)

Como era Vitória antes dos grandes aterros, da expansão urbana e das grandes transformações que configuram a cidade contemporânea? A partir deste 8 de setembro, moradores e visitantes poderão conhecer parte dessa história por meio da mostra virtual "Vitória em Negativos de Vidro", que reúne 50 imagens produzidas nas primeiras décadas do século XX, preservadas em placas de vidro - uma das coleções mais raras do Arquivo Público Municipal, que poderá ser acessada ao final desta matéria.

"Vitória em Negativos de Vidro" integra a programação especial pelo aniversário da cidade e celebra os '200 Anos da Fotografia no Mundo' - marcada pela obra "Vista da Janela em Le Gras", de Joseph Niépce em 1826.

Para trazer ao público as fotografias capturadas há mais de um século, os fotógrafos Carlos Antolini e Elizabeth Nader utilizaram os recursos tecnológicos disponíveis atualmente. Primeiro, eles fotografaram cada negativo de vidro, utilizando mesa de luz. Essa etapa incluiu a recuperação de imagens de placas quebradas ou trincadas, reunindo peça por peça, como um quebra-cabeça. Depois, fizeram o tratamento digital de cada fotografia, revelando detalhes que ficaram desconhecidos por décadas.

As fotografias da exposição revelam cenários já extintos na cidade, como o antigo Teatro Melpômene, demolido para a abertura da Rua 7 de Setembro; a entrada do antigo orquidário do Parque Moscoso; a Praia Comprida (parte da atual Enseada do Suá) e a Ilha do Príncipe, quando ainda era cercada de mar por todos os lados.

Também há registros de obras públicas, como a construção da adutora para abastecimento de Vitória no Reservatório de Duas Bocas, em Cariacica; casarios que foram derrubados em processos de desapropriação; e o cotidiano da cidade, como velório e sepultamento no Cemitério de Santo Antônio e a movimentação do Mercado da Vila Rubim. São documentos que ultrapassaram sua função original para se tornarem importantes testemunhos históricos.

O que são os negativos de vidro?

Os negativos de vidro em placa seca (dry plate) surgiram em 1871 e representaram uma inovação para a fotografia. As tecnologias anteriores, como o daguerreótipo e a placa úmida (wet plate), exigiam a manipulação química imediatamente antes e depois da captura da imagem, ou seja, exigiam um laboratório móvel, mais tempo, planejamento e muitas limitações. Já as placas secas eram pré-emulsionadas, industrializadas e vendidas prontas para o uso. Isso facilitou o manuseio, permitiu a produção em escala industrial e tornou a fotografia mais acessível e rápida.

"A conservação dos negativos de vidro é bem complexa. Elas precisam ser armazenadas de pé, apoiadas pela borda mais longa; são colocadas em envelopes de quatro abas com pH neutro ou alcalino; exigem controle de umidade, temperatura e luz. Por serem revestidas com uma emulsão química de halogeneto de prata sensível à luz -- principalmente brometo de prata suspenso em gelatina ou colódio -, elas podem se degradar diante de poeira, fungos, descamação da emulsão, luz e umidade, além de serem sujeitas a quebras por manuseio inadequado", explica Vadilson Malaquias, servidor do Arquivo.

São 117 placas secas de diferentes tamanhos: 84 peças de 24x18cm; 26 de 12x9cm; e 7 de 9x6cm. O processo de reprodução das imagens feito pelos fotógrafos Carlos Antolini e Elizabeth Nader garantiu fotografias mais fidedignas e de maior qualidade, além de uma maior durabilidade para todo o acervo.

"Durante muitos anos, o acesso às imagens contidas nos negativos de vidro foi muito reduzido, devido à fragilidade da química sobre as placas. Com a realização desta exposição, estamos corrigindo essa lacuna de anos na história e na memória capixaba", diz Ewerton Nicolau, responsável técnico pelo Arquivo Municipal.

Núcleo de Memória de Vitória

A mostra é a primeira ação que chega ao público realizada pelo Núcleo de Memória de Vitória. Formado por profissionais do Arquivo Público Municipal e da Subsecretaria de Comunicação, o Núcleo foi criado com o propósito de ampliar o acesso da população ao patrimônio histórico da cidade, divulgar os acervos públicos e fortalecer a memória coletiva como instrumento de cidadania.

Mais do que apresentar imagens antigas, o Núcleo de Memória busca transformar registros em conhecimento e história em sentimento de pertencimento, aproximando cidadãos, poder público e cidade. Para isso, já estão em andamento ações como a publicação de um livro, a realização de exposições temáticas, produções audiovisuais e projetos digitais, que poderão circular pela Prefeitura, equipamentos culturais e escolas da rede municipal.

Carlos Antolini comemora a criação do Núcleo de Memória: "Trabalhar no resgate de documentos históricos de Vitória é um desafio novo para mim, completamente diferente do trabalho que venho fazendo nesses 36 anos como fotógrafo da Prefeitura". O que não é novidade é a parceria com Elizabeth Nader: eles já fizeram juntos várias exposições e outros projetos especiais ao longo desses anos.

"O Núcleo de Memória vai conectar o passado e o presente, dando acesso e visibilidade ao acervo histórico. Essa parceria entre a Comunicação e o Arquivo Público representa a consolidação de uma política de memória, preservação e divulgação da história de Vitória", explica Elizabeth Nader, que também atua há mais de 30 anos como fotógrafa na Comunicação da PMV.

O centenário Arquivo Público de Vitória

O Arquivo Público Municipal foi criado pela Lei n.4 de 1909 - a mesma que criou a Prefeitura de Vitória - e foi regulamentado em 1941. O acervo histórico reúne aproximadamente 3,2 milhões de páginas de documentos produzidos desde o século XVII, além de coleções cartográficas, jornais, revistas, fotografias e peças museológicas. Somente a coleção fotográfica reúne cerca de 65 mil imagens originais e mais de 175 mil negativos, incluindo as raras placas de vidro que dão origem à exposição.

Serviço
Mostra virtual "Vitória em Negativos de Vidro"
Acesso: Portal da Prefeitura de Vitória
Realização: Núcleo de Memória de Vitória

Mostra virtual Vitória em Negativos de Vidro
Beatriz Bravin - Arquivo Municipal
Carlos Antolini e Elizabeth Nader fotografaram cada negativo de vidro e trataram todas as imagens
Carlos Antolini e Elizabeth Nader fotografaram cada negativo de vidro e trataram todas as imagens. (ampliar)
Elizabeth Nader
Vadilson Malaquias e Ewerton Nicolau comemoram a visibilidade que o acervo histórico vai ganhar
Vadilson Malaquias e Ewerton Nicolau comemoram a visibilidade que o acervo histórico vai ganhar. (ampliar)