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Carnaval 2026: Unidos de Jucutuquara exalta a força feminina e a ancestralidade

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Por Julya Feitoza (jfcarvalhoeira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de SEGOV/SUB-COM


Foto Divulgação
Jucutuquara

Fundada em 29 de janeiro de 1972, a G.R.C.E.S. Unidos de Jucutuquara é uma das mais tradicionais e vitoriosas escolas de samba do Carnaval Capixaba. Sob a presidência de Ewerton Fernandes e criação do carnavalesco Marcelo Braga, a agremiação chega ao Carnaval de 2026 reafirmando sua identidade, sua história vencedora e sua conexão profunda com a cultura popular e as tradições afro-brasileiras.

A trajetória da Jucutuquara começa como bloco carnavalesco, criado na casa da Srª Maria da Glória, a partir da iniciativa de Adilson Ribeiro da Silva, o Mestre Ditão, ao lado de Orestes Monteiro Alves, Guilherme Monteiro Alves e outros amigos. Nos primeiros desfiles, ainda sem enredo definido, o bloco era formado apenas por homens, que saíam às ruas usando tamancos. Com o passar do tempo, a fantasia de pescador tornou-se marca registrada, novas indumentárias foram incorporadas e as mulheres passaram a integrar o cortejo, ampliando a diversidade e a força do grupo.

A partir de 1980, o Unidos de Jucutuquara passou a disputar os concursos promovidos pela Prefeitura de Vitória, alcançando um feito histórico ao conquistar cinco campeonatos consecutivos. Esse desempenho levou à sugestão oficial para que o bloco se transformasse em escola de samba, o que se concretizou em 1986, com a criação do Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Unidos de Jucutuquara.

A estreia como escola, em 1987, foi marcante: campeã do 2º Grupo logo em seu primeiro desfile. No ano seguinte, já no Grupo Especial, a agremiação conquistou o vice-campeonato, demonstrando que estava pronta para figurar entre as grandes forças do carnaval capixaba. O primeiro título no Grupo Especial veio em 1990, com o enredo "Na mistura da Torta, a nossa mistura", celebrando a tradicional Torta Capixaba. Outros campeonatos se seguiram, em 2002, com "Da Escuridão à Luz... A noite, seus encantos e mistérios", e em 2004, com "Quantos mais caminhos houver, mais descaminhos haverá!".

Entre 2006 e 2009, a Unidos de Jucutuquara alcançou um feito histórico ao se tornar tetracampeã consecutiva do Carnaval de Vitória, consolidando definitivamente seu nome no hall das grandes escolas de samba do Espírito Santo e reforçando sua reputação de excelência artística e competitiva.

Para o Carnaval de 2026, a escola apresenta o enredo "Arreda Homem Que Aí Vem Mulher", uma narrativa simbólica e potente que tem como eixo central a figura de Maria Padilha. Entidade cultuada nas tradições afro-brasileiras, Padilha é apresentada como pombagira das encruzilhadas, dos caminhos e das passagens, força ancestral que atravessa tempos, territórios e imaginários, articulando espiritualidade, cultura popular e memória coletiva.

O enredo parte da compreensão de que as entidades espirituais não se limitam a uma origem fixa ou a um único tempo histórico. Elas se manifestam por meio de símbolos, gestos, cantos e rituais, sendo constantemente ressignificadas pelas comunidades que as cultuam. Maria Padilha surge, assim, como presença viva e dinâmica: entidade que circula, transforma e se reinventa, acompanhando as mudanças sociais e culturais sem perder sua essência.

Ao levar essa narrativa para a avenida, a Unidos de Jucutuquara reafirma o carnaval como espaço legítimo de expressão da fé, da ancestralidade e da resistência cultural. O desfile propõe uma reflexão sobre o feminino como força de poder, sabedoria e transgressão, exaltando mulheres que rompem silêncios, ocupam caminhos e escrevem suas próprias histórias. Em 2026, a Jucutuquara promete transformar o Sambão do Povo em encruzilhada simbólica, onde tradição, espiritualidade e espetáculo se encontram em um canto de afirmação, respeito e identidade.

Samba-enredo

ANTES DO MITO, FUI CARNE.

ANTES DA REZA, FUI MULHER.

FUI COROA ARRANCADA,

MAS JAMAIS DEIXEI DE SER RAINHA.

ME NEGARAM O ALTAR,

ME APAGARAM DA HISTÓRIA,

MAS SEGUI - INCENDIANDO O TEMPO.

CRUZEI OCEANOS EM SILÊNCIO,

E AO TOCAR O BRASIL,

DESPERTEI EM CORPO DE CHAMA,

EM RISO QUE CORTA,

EM SALTO QUE DESAFIA O CHÃO.

NÃO PRECISEI DE TRONO PRA SER TEMIDA.

NÃO PRECISEI DE FOGUEIRA PRA ARDER.

DANCEI COM O LEQUE, COM A ROSA,

COM A NAVALHA ESCONDIDA NO PEITO.

FIZ DO VENTRE UM TEMPLO,

DO PRAZER, UM FEITIÇO.

FUI AMANTE E ABANDONO,

CURA E MALDIÇÃO.

FALO COM AS MULHERES ESQUECIDAS,

COM OS HOMENS QUEBRADOS,

COM OS CORPOS QUE O MUNDO TENTOU NEGAR.

EU SOU O SUSSURRO QUE LEVANTA,

O GRITO QUE LIBERTA.

TRABALHO POR QUEM SANGRA E NÃO SILENCIA.

POR QUEM GOZA E NÃO SE ESCONDE.

POR QUEM ENTENDE:

VERGONHA NÃO É PECADO

PECADO É NÃO VIVER.

SOU MADRINHA DOS QUE BRILHAM NO ESCURO.

ESPELHO DA LIBERDADE QUE ASSUSTA.

SOU A ENCRUZILHADA QUE MORA EM VOCÊ.

NÃO ME CURVEI AO FOGO,

NÃO ME RENDI AO MEDO.

FUI RAINHA SEM COROA,

BRUXA SEM FOGUEIRA,

AMANTE SEM PERDÃO.

E AINDA ESTOU AQUI.

NO RASTRO DO PERFUME.

NA BEIRA DO COPO.

NO PASSO DA MULHER QUE NÃO ABAIXA A CABEÇA.

NO AXÉ QUE DANÇA ENTRE O CÉU E O INFERNO.

SOU ROSA QUE CORTA.

SOU VENTO QUE VIRA DESTINO.

SOU PADILHA.

SE MEU NOME TE ASSUSTA,

É PORQUE MINHA HISTÓRIA TE PROVOCA.