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Cras Alaides dos Anjos promove roda de conversa sobre prevenção à violência doméstica
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Por Rosa Blackman (rosa.adrianaeira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes
"Em briga de marido e mulher se mete a colher", sim! O ditado popular precisa ser ressignificado. A violência doméstica, psicológica, emocional ou financeira, muitas vezes, não deixa marcas físicas, o que faz com que muitas mulheres demonstrem dificuldade em reconhecer o abuso, enxergar motivos para sair e, até mesmo, apoiar outras a se desligarem dessa relação tóxica.
Essa dura realidade ficou estampada no rosto de algumas mulheres que participaram da roda de conversa sobre Direitos da Mulher, promovida pelo Centro de Referência de Assistência Social (Cras) Alaides dos Anjos Território Santa Martha, em parceria com o grupo Margaridas.
Como ficou evidente no olhar da jovem D. S. B., de 27 anos, mãe de três filhos - os gêmeos M. M. (13) e D. (15) -, ao final do encontro. Escolhida aleatoriamente para dar um depoimento sobre a importância daquela atividade, D., pouco a pouco, foi mudando sua expressão facial. A situação aguçou o desejo de entender o que uma pergunta tão "simples" estava causando tal reação.
"Eu odeio ser mulher. Todos os dias falo que odeio ser mulher. Falo todos os dias pelas situações a que nós, mulheres, somos submetidas, que a gente passa, que somos obrigadas a ouvir. Ele (referindo-se ao companheiro) me ofende muito. Fala palavrões horrorosos na frente dos meus filhos, que sabem que aquilo não deve ser dito a ninguém e que são palavras proibidas na minha casa", revelou D.
Sentindo-se em um ambiente seguro, ela contou que estar ali ouvindo a fez pensar na sua própria realidade e nas situações pelas quais passa em seu dia a dia. "A gente sente pena e acaba cedendo, quando não deveria. Às vezes, acho que eu que estou doida. Agora, ouvindo esta palestra, me sinto mais segura, mais forte para reagir", comentou ela.
Ao ser questionada como ficou sabendo daquela atividade do Cras, D. falou que foi até aquele equipamento socioassistencial em busca de informações sobre o bloqueio do benefício que recebia, quando foi convidada. "Mas, quando saí de casa, dizendo que participaria da palestra, ouvi: 'Vai lá perder tempo ouvindo um monte de besteira'. As pessoas dizem isso, mas foi muito bom para mim", afirmou ela, agora com uma expressão mais tranquila.
Do outro lado da roda de conversa estava Denise Andrade Quintão, 46, que fez questão de caminhar pelo centro para deixar registrada sua opinião sobre o evento. "Agora, me sinto importante por ser homenageada pelo Cras. Sinto que tenho valor. E a palestra me fez ver que tenho direitos como mulher. A gente não deve deixar ser pisada por nenhum homem. Existem leis, existe proteção. Cada reunião do Cras é um aprendizado. Eu fui em busca de um benefício e consegui muito mais", disse ela.
Aos 83 anos, Geslene Bernardes da Silva também estava na roda de conversas, acompanhada do SAD, que atende o irmão com limitações físicas. Ela declarou que, após 25 anos de casada, percebeu que o então marido foi ficando, pouco a pouco, agressivo e violento. "Só em ver esta mudança, me separei. As mulheres precisam tomar a decisão de sair no primeiro momento em que percebem", orientou Geslene. Muito falante, a idosa disse que "todas as mulheres precisam participar e ouvir estas coisas (referindo-se à palestra do grupo Margaridas). É muito bom ouvir falar de nós, mulheres, e sobre nós".
A coordenadora do Cras Santa Martha, Soraia Assis, destacou a urgência de ações como esta na proteção das usuárias. "Não podemos nos calar diante da violência silenciosa. A violência psicológica destrói a identidade da mulher antes mesmo de tocar em seu corpo. Nossa equipe está em alerta máximo. A roda de conversa não é apenas um encontro, é um esforço conjunto e urgente de salvar vidas, dando coragem para que elas digam basta antes que seja tarde demais", declarou Soraia.
A gerente de Atenção à Família em exercício, Daniela Colatto, fez questão de frisar que a orientação repassada para todas as equipes que atuam nos 12 Cras de Vitória é que o olhar para todas que chegam ao serviço seja cirúrgico para identificar as violências que silenciam as mulheres. "O feminicídio é o desfecho evitável de uma escalada de abusos psicológicos, patrimoniais e físicos. Por isso, trabalhamos incansavelmente na qualificação das nossas equipes para um acolhimento humanizado e resolutivo", falou Daniela.
A secretária de Assistência Social, Soraya Mannato, foi enfática "prevenir o feminicídio é agir no agora, oferecendo suporte técnico, segurança jurídica e, acima de tudo, dignidade para que essas mulheres retomem o protagonismo de suas histórias", concluiu a secretária.



