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Do Cais da Lenha ao Hidroavião: a História do Primeiro Aeroporto do Espírito Santo
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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes
À beira da Baía de Vitória, encontra-se um capítulo importante da história da capital, porém pouco explorado. Este período começa com o Cais da Lenha, acompanha a transformação do bairro Santo Antônio, incorpora a chegada de empresas internacionais e tem seu apogeu na construção do Cais do Hidroavião, em 1939, o primeiro aeroporto internacional do Espírito Santo.
Desativado apenas dez anos após sua inauguração, o hidroporto capixaba é um dos três únicos remanescentes daquela época no Brasil, e as experiências acumuladas naqueles anos até hoje têm grande valor para a aviação brasileira.
Documentos oficiais, jornais da época e fotos, preservados no Arquivo Público Municipal de Vitória, ajudam a reconstruir a história do hidroporto. "Esse material em breve vai completar um século e nosso papel é garantir que continue seguro e acessível. Afinal, trata-se de um acontecimento que durou menos de uma década, mas trouxe modernidade e conectou Vitória a outros países e continentes pelo modal aéreo", diz Vadilson Malaquias, integrante da equipe do Arquivo Municipal.
O Cais do Hidroavião é a lembrança de que Santo Antônio foi, durante um extraordinário momento, a porta de entrada para o mundo.
Antes da Chegada dos Hidroaviões
Nas primeiras décadas do século XX, Santo Antônio tinha pequenos comércios. Migrantes, estivadores, funcionários públicos, trabalhadores do mercado e policiais construíam lá suas casas, algumas bem à beira do mar. Só havia um ponto de encontro, o campo do Estrela Futebol Clube. O bonde elétrico chegou em 1912 e era a principal ligação do bairro com o Centro e com a Praia do Canto.
Desta forma, no Cais da Lenha se concentrava a maior movimentação do bairro. Por lá chegavam mercadorias como banana, cana de açúcar, café e lenha, provenientes de Iúna Grande, Rio Santa Maria e Cariacica. Vale lembrar que, em Vitória, o transporte de pessoas e de mercadorias era feito principalmente por mar, especialmente a linha cais Schmidt - cais de Argolas. A primeira ponte ligando a ilha ao continente, a Florentino Avidos, só foi inaugurada em 1928.
Syndicato Condor (ou Condor Syndikat)
Em 1º de agosto de 1929, a Condor Syndikat faz uma 'descripção technica' do futuro Aeroporto de Victoria, indicando a 'installação' em um terreno de 30x30m em Santo Antônio. O relatório diz:
"Para o encalhamento dos aviões, são necessários dois carros "Slip", os quaes são puxados para o interior do galpão por meio de um guincho. Em construção anexa a esse galpão, encontra-se a officina com guindaste para troca de motores, deposito, sala de despachos etc. A gazolina será depositada em tanque subterraneo. O terreno em questão foi aterrado com 3 metros e cercado com um muro de madeira."
Em seguida, a descrição lista todos os materiais e respectivos valores (em réis e contos de réis) para a criação do 'porto aéreo'.
A Condor Syndikat ou Syndicato Condor era nada menos do que uma subsidiária da Deutsche Luft Hansa, uma companhia aérea alemã fundamental para os primórdios da aviação comercial brasileira. Pioneira a operar rotas nacionais e internacionais no Brasil, ela chegou ao País em 1927, começando pela então capital, Rio de Janeiro.
"Pesquisas mais profundas, em arquivos da Aeronáutica ou do Governo Federal, podem nos trazer respostas sobre esse projeto, do qual pouco se fala", diz Malaquias. De qualquer forma, estes documentos provam que já havia interesses e estudos sendo feitos no terreno do futuro aeródromo.
O HIdroporto Capixaba
Na década de 1930, um acontecimento mudou todo o cenário: o governo anunciou a construção de um ponto de pouso e decolagem para hidroaviões. Na época, no Brasil, o transporte aéreo era feito principalmente por hidroaviões, que utilizavam cais flutuantes para embarque e desembarque. Nem existiam aeroportos civis estruturados no País. Para se ter uma ideia, o primeiro aeroporto civil brasileiro foi o Santos Dumont, no Rio de Janeiro, inaugurado em 30 de novembro de 1936.
A topografia, contra o vento nordeste, e a calmaria das águas influenciaram a escolha do local para implantação do hidroporto, além da infraestrutura do bairro, que contava com fácil acesso ao Centro da cidade. O flutuante para aviões fazia parte das promessas de modernização da capital.
Santo Antônio na Vanguarda Logística
Entre os anos 1920 e 1940, o Brasil investiu em hidroportos para atender demandas internacionais, militares e logísticas. Por um lado, havia poucas rodovias, ferrovias e aeroportos conectando as regiões do país. Já os hidroaviões podiam utilizar baías, rios e estuários como pistas naturais, criando rapidamente uma rede aérea nacional e internacional em um país de dimensões continentais.
Na mesma época, grandes companhias aéreas, especialmente a Pan American e a Panair -- utilizavam hidroaviões nas rotas da América do Norte, Caribe e Europa. Para garantir a operação dessas rotas internacionais aqui, o governo investiu em cidades com baías e águas calmas, como Vitória, Salvador, Rio de Janeiro, Belém e Manaus.
Os hidroportos também funcionaram como pontos de apoio militar, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), especialmente após 1942, quando o Brasil entrou oficialmente no conflito.
Projetado pelo arquiteto Ricardo Antunes, o hidroporto do antigo Cais da Lenha começou a ser construído em 1936, pelo Governo Federal e logo foi ficou conhecido como "Cais do Hidroavião". Exemplar da arquitetura no Brasil no início do século XX, o conjunto possui características funcionais e estéticas de vanguarda para a época. O tereno ocupa uma área de 1.019,71 m² e tem 430,01 m² de área construída. As obras foram realizadas por um consórcio que incluiu a Construtora Mauá, do Rio de Janeiro, e a inauguração foi em 1939.
O hidroporto, também chamado de aeródromo marítimo ou aquático, dispunha de instalações para embarque e desembarque de passageiros e carga e descarga de mercadorias. Na parte terrestre do cais ficavam a recepção, escritórios das companhias aéreas, setor de combustível e a infraestrutura administrativa. O protagonista da operação era o flutuante, uma plataforma móvel presa à edificação para acompanhar o sobe e desce das marés. Para o abastecimento, eram usadas longas mangueiras e as aeronaves eram atracadas, como as demais embarcações, para esta operação.
O aeroporto recebia desde simples monomotores a pesados quadrimotores de carga e passageiros. Em média, dois aviões pousavam no hidroporto. Segundo relatos dos jornais da época, as aeronaves tinham capacidade de transportar até 60 passageiros e estavam sempre cheias, devido ao baixo preço das passagens.
Conexões Internacionais
A localização de Vitória - entre Salvador e Rio de Janeiro - contribuía para essa movimentação. Aviões vindos do exterior ou de outros hidroportos precisavam fazer escala em Santo Antônio antes de seguirem viagem para as outras capitais. A rota Nova York-Buenos Aires, feita pela Pan Am, tinha parada técnica no Cais do Avião. Um voo que durava quase três dias. Com isso, autoridades e celebridades internacionais estiveram por algumas horas no único aeroporto do Estado.
Entre os mais citados pela imprensa da época estão o presidente Getúlio Vargas, o boxeador italiano Primo Carnera, Campeão mundial dos pesos-pesados de 1933, e o ator Tyrone Power, o protagonista de A Marca do Zorro (1940), filme indicado ao Oscar em 1941.
Com eles desembarcavam personagens menos conhecidos, como cafeicultores de Santa Leopoldina, Santa Tereza, Colatina, que mantinham a atividade comercial do hidroporto em crescimento. O cais era um escoadouro de produtos agrícolas vindos dos rios Santa Maria e Santa Leopoldina para outros mercados. O antigo Cais da Lenha já perdera a importância e a movimentação.
Os hidroaviões estavam rompendo a monotonia do bairro. Em pouco tempo, grandes aeronaves da Panair do Brasil, do Syndicato Condor e da Pan American Airways abriram novas rotas e Santo Antônio se conectava a Nova York, Buenos Aires, Salvador, Rio de Janeiro e capitais do Norte.
A pracinha em frente ao prédio ficava movimentada, com pessoas que iam apanhar e levar passageiros e contemplar as manobras das aeronaves. Bem em frente, havia o ponto final do bonde e, mais ao lado, o chamado cais das barcas, que era utilizado para o deslocamento de pessoas que trabalhavam ou iam visitar pacientes no hospital da Ilha da Pólvora.
A presença de aviões estrangeiros, pilotos uniformizados, mecânicos, funcionários e passageiros vindos de diferentes cantos impressionava as crianças, que se divertiam no cais.
Guerra Entre Vizinhos
Em 1942, quando o Brasil entrou na Guerra contra a Alemanha, o Syndicato Condor foi nacionalizado e rebatizado como Cruzeiro do Sul Transportes Aéreos. Todos os funcionários de origem alemã foram afastados. Na época, a empresa já possuía um hangar para manutenção de seus aviões Fokker, terrestres e marítimos, no antigo Aeroclube de Vitória, em Goiabeiras, que anos mais tarde daria origem ao atual Aeroporto Internacional de Vitória - Eurico de Aguiar Salles.
Os ex-funcionários que moravam em Santo Antônio ainda passaram a sofrer com a desconfiança dos vizinhos. Relatos da imprensa e de moradores antigos reportam que boatos se espalhararam na época e resultaram em violências, como saques às residências e linchamentos.
Poucos anos depois, com operações terrestres, a Cruzeiro do Sul se tornou a segunda maior companhia aérea do Brasil, atrás apenas da Panair, velha conhecida dos capixabas. Foi incorporada pela Varig em 1993., que teva a falência decretada em 2010.
O Fim da Guerra e dos Hidroaviões
Ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os hidroaviões já estavam obsoletos, diante das aeronaves mais rápidas, maiores e mais tecnológicas. Em Vitória, as operações do hidroporto começaram a migrar para o Aeroporto de Goiabeiras, cuja primeira etapa foi concluída em 1946. A operação no Cais do Hidroavião terminou oficialmente em 1948, um dos últimos do tipo a encerrar as atividades.
Um Recomeço à Altura
Por tudo isso, a Prefeitura de Vitória quer restaurar o Cais do Hidroavião. O município tem a cessão de uso do espaço - que pertencer ao Governo Federal - e já realizou estudos, concluiu o anteprojeto e está elaborando o edital para iniciar o processo de licitação do projeto de restauração e da obra. A iniciativa está prevista no Programa de Requalificação Urbana e Segurança Cidadã de Vitória, concebido no âmbito da Iniciativa Cidades Emergentes e Sustentáveis (ICES) do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).





