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Estátua "roubada" há 46 anos é recuperada pelo projeto "RenovAção" da Cultura de Vitória

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Por Pedro Vargas (pedrovargaseira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes


Jansen Lube
Estátua Deus Hermes abandonada é encontrada pela Semc
A estátua do Deus Hermes desapareceu da Praça Cecília Monteiro, sem deixar rastros, em 1979. (ampliar)
Jansen Lube
Estátua Deus Hermes abandonada é encontrada pela Semc
Esculpida em mármore de Carrara pelos artistas Pedro Gianordoli e Ferdinando Gianordoli em 1912, a peça integra o conjunto escultórico da escadaria Bárbara Monteiro Lindenberg. (ampliar)

Quarenta e seis anos. Quase meio século de silêncio, mistério e esquecimento. Assim viveu, ou sobreviveu, a estátua do Deus Hermes, símbolo do trabalho através do comércio e da riqueza, que um dia brilhou na Praça Cecília Monteiro, ao lado do Palácio Anchieta, e desapareceu sem deixar rastros em 1979. Para quem passa pelo local, resta apenas o pedestal vazio, quase um túmulo da memória.

Agora, essa história ganha um capítulo inesperado e arrebatador: a obra foi reencontrada e resgatada pelo projeto "RenovAção" da Cultura de Vitória, transformando lenda urbana em realidade palpável.

Esculpida em mármore de Carrara pelos artistas Pedro Gianordoli e Ferdinando Gianordoli em 1912, a peça integra o conjunto escultórico da escadaria Bárbara Monteiro Lindenberg. Durante 67 anos foi testemunha silenciosa do tempo, até ser dada como roubada. Peculiar "destino" para um Deus que também é reconhecido pelos gregos antigos pela astúcia e de certa forma, "divindade" dos ladrões.

O destino, porém, foi outro: um abandono burocrático. A estátua foi deixada em um ateliê para restauro e, esquecida por gestões municipais passadas, dormiu o sono dos invisíveis até ser reencontrada.

O responsável por acender essa "fagulha" foi o historiador Raphael Teixeira, apaixonado pelo Centro de Vitória, entusiasta e defensor da preservação e da educação patrimonial. Provocado por uma reportagem de 2018, iniciou uma busca quase "detectivesca".

Mergulhou em arquivos públicos, dialogou com outros historiadores e vasculhou memórias empoeiradas. Até que a revelação veio: a obra estava esquecida no ateliê de um artista na cidade vizinha, Vila Velha.

Atualmente o local onde "repousa" o Deus Hermes, não é mais um ateliê, e sim uma casa que foi alugada a terceiros com o "insólito" objeto no quintal.

Conhecedor do "RenovAção", da Secretaria Municipal de Cultura (Semc), Raphael, então, levou a descoberta à pasta, onde encontrou acolhimento imediato nos trabalhos do projeto.

"Vale a pena perseverar e lutar pelo patrimônio público e pelo Centro da Cidade", afirmou o historiador Raphael, emocionado com a virada histórica.

O secretário municipal de Cultura de Vitória, Edu Henning, celebrou o retorno da obra como um divisor de águas: "É como se abríssemos uma cápsula do tempo e, de repente, a cidade se reencontrasse consigo mesma. Receber de volta essa estátua, após 46 anos de ausência, é mais do que restaurar uma peça de mármore: é restaurar a memória, a identidade e a alma de Vitória. O RenovAção nasceu para isso, e este é o capítulo mais surpreendente da sua trajetória até agora."

Em 2025 a Praça Cecília Monteiro completou 100 anos e agora, ganha de presente, nos próximos dias, o reencontro com Hermes e também com a própria história.

"A estátua que um dia desapareceu como um segredo mal guardado retorna para ensinar que o patrimônio, mesmo esquecido, nunca deixa de clamar pela sua gente", completa Raphael.

"Vitória, enfim, devolve ao pedestal vazio a esperança de vê-lo preenchido. E ao povo, a certeza de que sua memória é viva e, como o deus Hermes, sempre capaz de renascer", finaliza o secretário.

O futuro do passado

Nos próximos dias a Prefeitura de Vitória (PMV), por meio de uma parceria da Semc com a Central de Serviços, devolverá a peça, de 114 anos, à praça. A princípio, a obra será entregue assim como foi encontrada: "in natura" com as marcas do tempo e da pitoresca história pela qual passou. 

Para o seu restauro, que exige mão de obra especializada, material de origem italiana, além de muito conhecimento acerca de como a peça era originalmente, a Semc estuda diferentes caminhos e possibilidades e incluirá a medida dentro do projeto "RenovAção".

RenovAção

O projeto, lançado em 2025, já soma cerca de R$ 250 mil em investimentos e tem como meta restaurar e valorizar 62 monumentos públicos catalogados da capital até 2026; número que, com a volta de Hermes, agora passa a ser 63. A estimativa total de investimento do RenovAção é de aproximadamente R$ 2,5 milhões.

"Muito além de recuperar peças, o RenovAção reconta a história da cidade, trazendo para o presente fragmentos que pareciam condenados ao esquecimento", explica Edu.

Entre os marcos já contemplados estão o monumento a Yemanjá, na orla de Camburi, a estátua de Getúlio Vargas, o monumento às Paneleiras de Goiabeiras, monumento à Grécia e também o ao Ano Internacional da Paz, além de cinco bustos históricos na Praça Costa Pereira.

Jansen Lube
Estátua Deus Hermes abandonada é encontrada pela Semc
Após 46 anos desaparecida, a estátua foi encontrada, em condições críticas, em uma casa que foi alugada a terceiros. (ampliar)
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Estatua de Hermes
O historiador Raphael Teixeira, conhecedor do projeto "RenovAção", da Secretaria Municipal de Cultura (Semc), foi quem fomentou a busca pela estátua e , levou a descoberta à pasta.