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Olympio Brasiliense: o engenheiro mineiro que ajudou a desenhar a Vitória moderna
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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes
Quem circula por Vitória, sejam moradores, trabalhadores ou visitantes, passa por dezenas de criações desenvolvidas ou coproduzidas pelo engenheiro mineiro Olympio Brasiliense, um dos principais projetistas em atividade na capital nas décadas de 1920 a 1960. Seus trabalhos incluem o Mercado São Sebastião, em Jucutuquara; o Centro de Saúde de Vitória, no Parque Moscoso; o Colégio Salesiano, no Forte São João; o Sanatório Getúlio Vargas (atual Hucam), em Maruípe; o Hospital Infantil, na Praia de Santa Helena, e a Igreja Santa Rita de Cássia, na Praia do Canto.
Olympio Brasiliense atuou no planejamento da Esplanada Capixaba, que promoveu a remodelação da Avenida Jerônimo Monteiro e deu origem às avenidas Princesa Isabel e Beira-Mar, e projetou eixos estratégicos para a mobilidade e a expansão urbana, como as avenidas Vitória e Cleto Nunes. Há também plantas de prédios públicos e residências, projetos de praças -- como a da Catedral -- e equipamentos coletivos, como o Estádio do Rio Branco, entre suas criações.
O Arquivo Público Municipal preserva pranchas e plantas assinadas por Brasiliense, incluindo sistemas de abastecimento de água e soluções de saneamento para bairros da capital e de outros municípios do Estado. A maior parte dos projetos foi concebida ao longo dos quase 40 anos em que trabalhou como engenheiro do antigo Serviço de Melhoramentos de Vitória, auxiliando diferentes governos nos planos de expansão e modernização da capital.
A obra de "Doutor Olympio", como era chamado, impactou a configuração da cidade, a organização dos espaços públicos e a demarcação, por meio da arquitetura, de diferentes momentos políticos e sociais culturais do Espírito Santo.
"É importante preservar esses documentos, manter esse legado vivo, reconhecer o valor do servidor público que trabalha com visão de longo prazo. A obra de Brasiliense integra a memória afetiva e arquitetônica de Vitória", afirma Vadilson Malaquias, que integra a equipe do Arquivo.
Um mineiro na cidade praiana
Nascido em Belo Horizonte, em 10 de novembro de 1903, Olympio Brasiliense formou-se pela Escola de Engenharia de Belo Horizonte e também estudou na Escola Mineira de Agronomia e Veterinária.
Veio para o Espírito Santo em 1924, a convite do governador Florentino Avidos, para trabalhar no Serviço de Melhoramentos de Vitória e na construção do antigo leprosário. Assumiu postos de chefia nos órgãos estaduais ligados ao abastecimento de água e saneamento, áreas estratégicas para a modernização da capital, e foi desenhista da Comissão de Obras para o Reforço do Abastecimento de Água de Vitória, em 1935.
Com o Decreto-Lei estadual de 1940, o Serviço de Água e Esgotos foi incorporado à Prefeitura de Vitória e Olympio passou a integrar definitivamente o quadro do município, contribuindo por décadas para o planejamento da cidade. Ele atuou no projeto da Escadaria São Diogo, no Centro, inaugurada em 1942. Já em 1954, tornou-se Chefe do Setor de Urbanismo da Seção de Planos e Projetos.
Aposentou-se na década de 1960. Fez ainda alguns projetos de casas particulares, muitas ainda existentes, até o início dos anos 1970. Faleceu em Vitória, em 4 de janeiro de 1985, aos 82 anos. Calcula-se em mais de 370 projetos de edifícios públicos e residenciais, que constituem o acervo preservado por ele e, após sua morte, por sua família.
Projetos para o desenvolvimento
Pesquisadores creditam ao governo de Jerônimo Monteiro (1908-1912) o início do processo de modernização de Vitória, com a realização dos primeiros aterros, a expansão da energia elétrica, a chegada do bonde, a estruturação do porto e as intervenções para o embelezamento da capital, como a criação do Parque Moscoso. O esforço para eliminar o aspecto colonial da cidade continuou nas décadas seguintes, nas administrações de Nestor Gomes (1920-1924), Florentino Avidos (1924-1928), João Punaro Bley (1930-1943) e Jones Santos Neves (1943-1945).
A década de 1920, impulsionada pela valorização do café, é reconhecida como um dos períodos de maiores transformações urbanísticas do Centro. Um dos fatores foi a elaboração do Plano de Melhoramentos, concebido no governo de Nestor Gomes e que esteve em vigor até 1928. O plano buscou enfrentar problemas estruturais, como a oferta habitacional e a ampliação dos serviços de abastecimento de água, esgotamento sanitário, energia elétrica e transportes. Além disso, promoveu a expansão para novos bairros fora do núcleo tradicional da cidade.
O engenheiro Florentino Avidos participou do plano como chefe do Serviço de Melhoramentos de Vitória, que introduziu normas técnicas e novas diretrizes para as práticas de projetar e de construir em Vitória. Ao assumir o governo, em 1924, Florentino Avidos deu continuidade ao Plano e convidou Olympio Brasiliense para trabalhar nos projetos. No Centro, ruas estreitas e tortuosas foram alargadas, retificadas, drenadas e pavimentadas; escadarias foram construídas para facilitar o acesso à Cidade Alta; e diversas melhorias foram implementadas com o objetivo de adequar o espaço urbano às exigências da modernidade.
Já em 1947, o processo de urbanização ganhou novo impulso com um plano supervisionado pelo urbanista francês Donat-Alfred Agache. O Plano Agache, como ficou conhecido, serviu de referência para intervenções na década de 1950, sobretudo na Esplanada da Capixaba, e propôs um novo aterro junto à baía de Vitória, que deu origem às avenidas Princesa Isabel e Beira-Mar. Essa intervenção permitiu a incorporação ao Centro da cidade de uma área aproximada de 96.000 m², o que favoreceu tanto a ampliação do porto quanto o aumento das áreas edificáveis da capital.
A execução desse aterro ocorreu no governo de Jones dos Santos Neves (1951-1954), período marcado pela verticalização na ocupação do Centro e aprofundamento do processo de modernização iniciado nas primeiras décadas do século XX.
Obras que desenharam a cidade moderna
A trajetória de Olympio Brasiliense evidencia o papel do poder público no desenvolvimento urbano. Durante as décadas de 1930 a 1970, em Vitória, era preciso garantir serviços essenciais como abastecimento de água, saneamento e mercados públicos na capital, bases para a saúde, para a economia local e para a qualidade de vida.
A capital pedia por novos espaços públicos, vias estruturantes e edificações que refletissem o espírito da época, acompanhando o ritmo das grandes metrópoles brasileiras. Nesse processo, o engenheiro não usou um estilo único, mas adaptou a linguagem arquitetônica à função pública, ao programa e ao simbolismo de cada edificação.
. Mercado São Sebastião
Inaugurado em 1945, o Mercado São Sebastião foi o primeiro mercado municipal construído fora do Centro. A arquitetura do prédio evoca a tradição colonial brasileira, simplificada, sem excessos eruditos, adequada a um equipamento popular. O mercado funciona quase como uma praça murada, conceito muito presente na arquitetura de mercados tradicionais.
. Centro de Saúde de Vitória
O Centro de Saúde de Vitória, localizado no Parque Moscoso, é marcado por volumes geométricos simples, com predominância de linhas retas e ângulos definidos -- uma linguagem típica da arquitetura pública brasileira dos anos 1930-1940, situada entre o art déco e o modernismo funcional. Como Centro de Saúde, o projeto responde às ideias médicas e sanitárias da época: grandes janelas garantem ventilação cruzada e iluminação natural; a planta organiza os fluxos internos; materiais aparentes e superfícies lisas facilitam a higiene, a assepsia e a manutenção; um edifício institucional, mas não monumental.
. Colégio Salesiano
O Colégio Salesiano, no Forte São João, apresenta uma fachada rigorosamente simétrica, característica típica de arquiteturas institucionais e acadêmicas da primeira metade do século XX. O prédio central mais elevado, com torre e campanário, entre alas horizontais, cria forte sensação de ordem, hierarquia e estabilidade. A fachada dialoga com a arquitetura religiosa católica, uma composição recorrente em colégios confessionais no Brasil entre as décadas de 1920 e 1940. O edifício foi pensado para marcar presença no tecido urbano, funcionar como referência visual e institucional, e comunicar permanência e autoridade.
. Banco de Crédito Agrícola: solidez institucional
A primeira sede do Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo, projetada em 1940 para a Praça Oito de Setembro, apresenta uma arquitetura monumental e sóbria, que transmite estabilidade e permanência -- valores essenciais de uma instituição financeira. O edifício combina tradição clássica e modernidade e dialoga com a arquitetura pública do período Vargas, entre 1930 e 1945. As características incluem monumentalidade sem ornamento, geometria rigorosa, ênfase na verticalidade e linguagem de autoridade racional.
. Sanatório Getúlio Vargas (Hucam)
O Sanatório Getúlio Vargas, atualmente Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), foi projetado na década de 1940. A arquitetura reflete uma racionalidade funcional, com foco em circulação interna, ventilação e luz natural, apresentando uma mistura típica do período de transição entre o tradicional e o modernismo brasileiro.
. Projetos urbanos estruturantes
Olympio Brasiliense deixou sua marca no próprio desenho da cidade. Como no traçado da Avenida Vitória, uma planta que descreve terrenos e benfeitorias situados no arrabalde de Jucutuquara, incluindo a Companhia Fiação e Tecidos Leopoldinense, a Avenida 15 de Novembro (atual Paulino Müller), a linha do bonde e o projeto de urbanização. Esse projeto demonstra sua visão estratégica para a mobilidade urbana.
O Projeto de Urbanização da Capixaba teve duas fases marcantes. Na primeira, a remodelação da Avenida Jerônimo Monteiro: as obras de aterro se estenderam da rua Sete de Setembro até a atual escadaria de ligação com a ladeira Pernambuco, hoje rua Wilson de Freitas. Neste trecho aterrado, foi construído o Mercado da Capixaba.
Na segunda fase, Olympio projeta, em 1924, a criação da Avenida Princesa Isabel: uma avenida ao longo da baía de Vitória, das imediações da praça Oito de Setembro até o Forte São João. A obra será prolongada até a Avenida Vitória, resultando, anos depois, na atual Avenida Princesa Isabel.
Ele também trabalhou no desenho da Reta da Penha, outro importante eixo de circulação e de expansão comercial e residencial da cidade.
. Arquitetura residencial
A produção de projetos residenciais revela outra faceta de Olympio Brasiliense. Para clientes de classe média alta, com desejo de distinção social por meio da arquitetura, ele apresenta plantas bem mais elaboradas, com linguagem bem distante da sobriedade moderna vista nos prédios públicos. É o caso das casas de famílias como a de Guilherme Santos Neves, Bárbara Lindemberg e Regina Maria Novaes de Almeida, construídas em bairros em expansão, fora do núcleo colonial antigo.
Essas residências apresentam forte presença ornamental e caráter representativo burguês. A composição é complexa, típica do ecletismo residencial urbano do início do século XX, com torres e pináculos remetendo ao neogótico, arcos ogivais e plenos usados de forma decorativa, balcões, sacadas e janelas emolduradas, e coroamentos ornamentais.
No entanto, esses projetos revelam plantas organizadas por setores (social, íntimo e serviço), circulação vertical bem definida, estruturas bem resolvidas e atenção à ventilação e à iluminação. Isso mostra que ele dominava técnicas contemporâneas.
Legado e permanência
Entre outros projetos importantes estão o Hospital Infantil (1934), na Praia de Santa Helena; a Igreja Santa Rita de Cássia, na Praia do Canto; a Praça Luiz Scortegagna; e a reforma e ampliação do Hotel Majestic. Brasiliense também desenvolveu dezenas de sistemas de abastecimento de água e soluções de saneamento para bairros da capital e de outros municípios.
Olympio Brasiliense atuou no público e no privado, no cotidiano e no simbólico, na tradição e na modernidade. Ele dominava múltiplos estilos com segurança, do mercado popular à casa de alto padrão, do banco monumental ao centro de saúde funcional.
Referências
DINIZ, Luciana Nemer. Habitação Coletiva no Centro Histórico de Vitória - anos 30 Disponível em: https://www.snh2017.anpuh.org/resources/anais/54/1488811014_ARQUIVO_ANPUHHabitacaoColetivanoCentroHistoricodeVitoria.pdf Acesso em: 28/01/2025.
GOMES, Eduardo Rodrigues. A modernização urbana do Centro de Vitória (ES): considerações preliminares sobre a geografia do passado de uma cidade. Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2026.
SANTOS NEVES, Maria Clara Medeiros; BRASILIENSE, Vanessa. Olympio Brasiliense: 50 anos de arquitetura em Vitória. Vitória: Phoenix Cultura, 2012 Disponível em: http://www.estacaocapixaba.com.br/sem-categoria/olympio-brasiliense-amostra-de-acervos-institucionais/. Acesso em: 19/01/2025.