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Convento São Francisco, um dos mais antigos do Brasil, é símbolo de fé e da história de Vitória

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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Julia de Almeida


Elizabeth Nader
Convento São Francisco

Poucas pessoas sabem que o Convento São Francisco, na Cidade Alta, foi o primeiro mosteiro franciscano construído ao sul da Bahia, a capitania que era o centro do Brasil Colônia, e é o quinto mais antigo de todo o território nacional. Do início das obras, em 1591, aos múltiplos usos nos séculos seguintes, esta edificação está profundamente ligada à formação da capital capixaba e à construção da identidade social, religiosa e cultural de todo o Espírito Santo.

Apenas quatro conventos franciscanos são mais antigos que o de Vitória: o de Olinda (PE), de 1585; o de Salvador (BA), de 1587; o de Santo Antônio de Igarassu (PE), de 1588; e o de Santo Antônio de João Pessoa (então Filipéia de Nossa Senhora das Neves, PB) de 1589. Décadas mais tarde, foram construídos os conventos do Rio de Janeiro (1608); São Paulo (1639); e Santos (1639).

O monumento mais conhecido do Espírito Santo, o Convento da Penha, em Vila Velha, de 1650. No entanto, sua história começa bem antes: em 1562, Frei Pedro Palácios construiu, no local conhecido como Campinho, a primeira capela dedicada a São Francisco de Assis. Já em 1568, foi erguida, no topo do Outeiro, a capela dedicada a Nossa Senhora da Penha, que deu origem direta ao atual santuário.

Esta história foi resgatada por pesquisas, referências bibliográficas e cartográficas preservadas no Arquivo Público Municipal de Vitória. Relembrar essa trajetória traz à tona elementos fundamentais na formação urbana da capital, como a cultura religiosa, as estruturas portuárias coloniais e os sucessivos processos de aterro que redefiniram a geografia da capital capixaba.

Doação de Luísa Grimaldi

Foi Vasco Fernandes Coutinho Filho quem convidou os frades franciscanos a se instalarem na Capitania. No entanto, com o falecimento do donatário, coube à donatária Luísa Grimaldi honrar o desejo do marido e doar aos religiosos um terreno coberto por mata virgem, situado na parte alta da então Villa de Victoria.

A pedra fundamental do Convento foi lançada em novembro de 1591. O monte escolhido era banhado pelo mar e, ali, foi construído o Cais de São Francisco (hoje, Rua Thiers Vellozo). Dali, os frades partiam para atender a população de outras localidades e auxiliar nas atividades da Capela de São Francisco de Assis, em Vila Velha, construída por Frei Pedro Palácios em 1562.

O Cais de São Francisco

A história do Convento São Francisco está diretamente ligada à antiga relação de Vitória com o mar. Desde o século XVI, os frades franciscanos utilizavam um pequeno cais situado ao pé do Morro de São Francisco, voltado para a baía, que facilitava o deslocamento dos religiosos e o abastecimento do convento com alimentos, tecidos, mercadorias.

O cais integrava o sistema de atracadouros coloniais da cidade, ao lado do Cais da Alfândega e do Cais do Imperador. Na ausência de infraestrutura portuária formal, esses cais eram fundamentais para a circulação de mercadorias e pessoas.

A partir do século XIX, com os sucessivos processos de aterramento motivados por questões sanitárias e urbanísticas, a antiga linha d'água desapareceu e as glebas foram incorporadas ao traçado urbano, dando origem a logradouros como a atual Rua Thiers Vellozo. Logradouros como a Rua Cais de São Francisco e a Rua São Francisco, em frente ao convento, funcionam como marcos de memória da antiga relação da cidade com o mar.

Arquitetura e organização

Do antigo conjunto, o elemento arquitetônico mais preservado é o frontispício do convento, reformado nos anos de 1744 e 1784. Em reconhecimento à sua relevância histórica, o imóvel foi tombado como Patrimônio Histórico e Artístico Estadual em 1984, pelo Conselho Estadual de Cultura.

O conjunto arquitetônico original do Convento São Francisco refletia a simplicidade característica da Ordem Franciscana: das portas de madeira trabalhada às paredes grossas, da fachada sóbria ao interior que inspira contemplação.

Além da igreja, o complexo incluía o monastério com claustro e dependências destinadas à vida religiosa, a Capela da Venerável Ordem Terceira da Penitência, capelas auxiliares, jardim, horta, pomar e um cemitério.

A igreja possuía três altares ricamente entalhados, executados entre 1617 e 1620: o altar-mor, dedicado a São Francisco de Assis e ladeado por Santo Antônio e São Benedito, além de dois altares laterais com as imagens de Nossa Senhora da Conceição e São Boaventura.

Se, por um lado, somente homens brancos, ricos e socialmente influentes integravam a Ordem Terceira de São Francisco, por outro, a Capela da Ordem Terceira abrigou a Irmandade de São Benedito, inicialmente formada por negros escravizados ligados ao próprio convento. Essa irmandade teve papel fundamental na inserção da população negra na cultura cristã e na vida religiosa da cidade, promovendo festas, procissões e atividades que marcaram a história social de Vitória.

Atuação religiosa, social e missionária

A atuação franciscana era pautada pela simplicidade evangélica, pela catequese e pelo compromisso com os mais pobres. Os religiosos desenvolviam as chamadas missões volantes, deslocando-se até comunidades indígenas e populares em seus próprios territórios, em vez de impor aldeamentos fixos.

Essa prática estreitou os laços entre missionários e a população, tornando o convento um espaço de acolhimento e referência espiritual. Assim, desde a fundação, o Convento São Francisco foi um importante centro de atividades religiosas, culturais e educacionais.

A torre do convento foi construída em 1774 e recebeu os sinos que permanecem até os dias atuais. No ano seguinte, o espaço acolheu visitantes apostólicos, como Frei José do Amor Divino e Frei Salvador, que utilizaram o convento como base para missões em diversas localidades do Espírito Santo.

Escola, cemitério e serviços públicos

Desde o início do século XVII, o convento mantinha um cemitério próprio. Em 1609, os restos mortais de Frei Pedro Palácios foram transferidos de Vila Velha para o cemitério do convento, atendendo à tradição franciscana de sepultar confrades em seus monastérios.

No século XIX, com o crescimento acelerado da população e a falta de saneamento básico, Vitória foi severamente atingida por epidemias de varíola e cólera. As igrejas já não comportavam novos sepultamentos, levando o governo provincial a instalar, em 1856, um cemitério oficial em terreno pertencente ao Convento São Francisco. Nesse espaço já existia a Capela de Nossa Senhora das Neves, que passou a funcionar como necrotério até 1908, quando foi inaugurado o cemitério municipal em Santo Antônio.

Ao longo desse período, o convento atendeu à população em diferentes frentes com finalidades públicas: foi escola elementar, enfermaria durante epidemias e espaço de apoio a emergências sanitárias, perdendo gradativamente sua função religiosa original.

Já no período imperial, houve restrições às atividades da igreja, especialmente da entrada de novos noviços, o que provocou o esvaziamento progressivo dos conventos. No final do século XIX, o Convento São Francisco contava com poucos religiosos e ficou sem recursos para manutenção. Corria o risco de ser confiscado pelo poder público.

A situação começou a mudar com a criação da Diocese do Espírito Santo, em 1895. Seu primeiro bispo, Dom João Batista Corrêa Néri, atuou para garantir a preservação do edifício. Em 1899, com autorização do Papa Leão XIII, o convento foi oficialmente transferido para a administração da Diocese, passando a integrar a estrutura institucional da Igreja Católica no Espírito Santo.

As transformações do século XX e o Orfanato Cristo Rei

Em 1924, o antigo convento ganhou uma nova e importante função social com a criação do Orfanato Cristo Rei, idealizado pelo Padre Leandro dell'Uomo e aprovado por Dom Benedito Paulo Alves de Souza. O orfanato acolheu crianças pobres, órfãs e abandonadas, muitas delas descendentes de indígenas e de pessoas anteriormente escravizadas, transformando o espaço em um centro de promoção humana e assistência social.

Para atender a essa nova missão, foram realizadas reformas no prédio, que modificaram quase por completo a estrutura original do convento e da igreja. Nessas intervenções, houve a perda de importantes elementos da arquitetura colonial. Os restos mortais de Frei Pedro Palácios foram reunidos em um ossuário comum, junto a outros, no pátio central, onde foi erguido um monumento encimado pela imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

Ao longo do século XX, a edificação abrigou, entre outras atividades, a residência episcopal, o Colégio Agostiniano (entre 1970 e 1976), as Irmãs Carmelitas (de 1981 a 1985), seminários, a Rádio Capixaba, a Cáritas, a Secretaria de Pastoral e a Comissão Justiça e Paz.

A partir de 1985, o Convento São Francisco passou a funcionar definitivamente como sede da Cúria Metropolitana de Vitória, tornando-se o centro administrativo e pastoral da Arquidiocese. Atualmente, abriga escritórios, salas de reunião, biblioteca, capela, pequeno museu com objetos de antigos arcebispos, além de oferecer uma vista privilegiada para o Centro Histórico e para o Parque da Fonte Grande.

Capela de Nossa Senhora das Neves

A Capela de Nossa Senhora das Neves possui planta em forma de cruz e também teve diferentes usos ao longo do tempo. Além de necrotério entre 1860 e 1905, acolheu famílias sem moradia até a década de 1940, funcionou como museu de folclore estadual entre os anos 1950 e 1970 e passou por períodos de abandono, até ser restaurada e reaberta em 1995.

REFERÊNCIAS

DERENZI, Luiz Serafim. Biografia de uma Ilha. Vitória: Secretaria Municipal de Cultura, Prefeitura Municipal de Vitória, 2019. Disponível em: https://ael.org.br/publicacoes_da_academia_espirito_santense_de_letras/biografia_de_uma_ilha.pdf Acesso em: 2 mar. 2026.

ELTON, Elmo. Monumentos de Vitória. Vitória, 1986.

ESPÍRITO SANTO. Secretaria de Estado da Cultura. Arquitetura: Patrimônio Cultural do Espírito Santo. Vitória: SECULT, [s.d.]. Disponível em: https://secult.es.gov.br/Media/Secult/patri/%20Catalogo%20do%20Patrim%C3%B4nio%20Arquitet%C3%B4nico.pdf Acesso em: 7 abr. 2026.

PREFEITURA MUNICIPAL DE VITÓRIA. Convento São Francisco e Capela de Nossa Senhora das Neves. Secretaria Municipal de Cultura. Vitória, [s.d.]. Disponível em: https://www.vitoria.es.gov.br/convento-sao-francisco Acesso em 7 abr 2026