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Exposição no Arquivo Público mostra a formação de Vitória, desde os jesuítas até a era republicana
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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes
As muitas transformações pelas quais a pequena Villa de Victoria passou, desde o primeiro quitungo que abrigou os jesuítas, os primeiros núcleos de ocupação, até as mudanças estruturais, higienistas e modernizadoras da era republicana. Este é o conteúdo da exposição aberta ao público até o dia 17 de abril, no Hall do Arquivo Público Municipal.
Em dez banners distribuídos pelo espaço, a arquiteta, historiadora e pesquisadora Luciana Nemer apresenta uma narrativa visual e histórica sobre como a capital capixaba foi se constituindo ao longo dos séculos. Os painéis reúnem textos analíticos, fotografias históricas, plantas arquitetônicas, mapas e ilustrações - muitos dos quais ela pesquisou no próprio Arquivo Municipal -, que ajudam a compreender a formação urbana de Vitória.
A formação da Villa de Victoria
Na parte dedicada ao período colonial, a exposição retoma o século XVI, quando Vasco Fernandes Coutinho chegou ao Espírito Santo, e destaca as razões estratégicas que levaram à ocupação da Ilha de Santo Antônio, futura Vitória. Enquanto a vila original, em área plana, era mais vulnerável a ataques de piratas e indígenas, o relevo acidentado da ilha, com afloramentos rochosos, oferecia melhores condições de defesa.
A exposição narra a doação da ilha a Duarte de Lemos, que inicia as plantações e edificações na parte mais alta e protegida do território. É nesse contexto que surge a primeira habitação da Villa de Victoria: um quitungo, ou grande tenda, que abrigava os jesuítas, posteriormente substituído por um seminário construído pelos próprios padres, identificado pela autora como a Casa dos Religiosos.
Mapas e ilustrações ajudam a visualizar a ocupação inicial, restrita ao núcleo histórico, com casas implantadas em ladeiras, sobre solo firme, para evitar os alagamentos provocados pelas marés. A presença da igreja, das primeiras habitações e das fortificações aparece em desenhos, mapas e plantas arquitetônicas, que reconstituem a paisagem urbana dos séculos iniciais.
Fortificações, arruamentos e crescimento urbano
Avançando no tempo, a exposição retrata o século XVIII, quando a arquitetura e o arruamento da Villa de Victoria passam a seguir padrões comuns às grandes cidades brasileiras da época, ainda que com fragilidades defensivas. A exposição destaca o investimento nas fortalezas, financiado por multas cobradas pelo descumprimento das leis.
Entre os exemplos apresentados estão o Forte São João, de planta hexagonal, levantado em 1726, e o Forte São Diogo, localizado na área onde hoje se encontra a Escadaria de São Diogo, nas proximidades da atual Praça Costa Pereira. Os textos e imagens situam esses equipamentos no tecido urbano contemporâneo, facilitando a compreensão espacial por parte do público.
De vila a cidade
Um dos momentos centrais da narrativa exposta é a elevação da Villa de Victoria à categoria de cidade. Documentos históricos reproduzidos nos banners registram a Resolução Régia de 24 de junho de 1818, que recomendava transformar Vitória em cidade, e a Lei de 17 de março de 1823, promulgada poucos meses após a Independência do Brasil, que oficializou a mudança.
A exposição inclui a transcrição do edital publicado pela Câmara Municipal à época, que determinava três noites de iluminação em celebração ao acontecimento, evidenciando o simbolismo político e urbano dessa transição.
Habitação, higiene e reformas no Império
No período imperial, a habitação passa a ser analisada em diálogo com o crescimento populacional, impulsionado especialmente pela economia cafeeira, e com as novas preocupações sanitárias, que resultam em intervenções urbanas e criação de políticas e de leis.
A exposição mostra como a cidade buscou melhorar suas condições de salubridade por meio da limpeza de chafarizes e ruas, da reforma de edifícios e da criação de normas urbanas. Uma curiosidade: Em 1857, pela primeira vez, a cidade terá as casas numeradas e as ruas identificadas. Uma decisão da Câmara Municipal atendendo a uma demanda que vinha sendo feita desde 1854.
O aterro da antiga Prainha no Largo da Conceição (área da futura Praça Costa Pereira) aparece como exemplo das soluções adotadas para enfrentar os frequentes alagamentos. Fotografias e mapas ajudam a compreender a transformação dessa área estratégica da cidade.
Outros marcos históricos também são apresentados, como a autorização para a construção da Praça do Mercado, em 1864; o início da urbanização da área do Campinho (futuro Parque Moscoso), após o aterro do manguezal, em 1871; e os primeiros registros fotográficos de Vitória, feitos pelo francês Victor Frond, em 1860.
Uma cidade movimentada
A exposição revela uma cidade em intenso movimento durante a segunda metade do século XIX. O comércio funcionava das seis da manhã às oito da noite, quando o sino da Igreja de São Tiago anunciava o silêncio. Durante o dia, os cais concentravam o fluxo de mercadorias que chegavam e partiam da capital.
A década de 1870 é apresentada como um período de avanços, com a inauguração da Estação de Correios e Telégrafos, em 1874, e a implantação da iluminação pública a gás, em 1879. Já na década seguinte, surgem soluções para o abastecimento de água, como a perfuração de poços artesianos, em substituição ao transporte em canoas a partir do Rio Marinho.
A exposição também registra a chegada, por telegrama, da notícia da abolição da escravatura, em 1888, e as dificuldades financeiras que retardaram a instalação das placas de identificação dos prédios e das ruas.
A República e a nova administração urbana
O percurso expositivo se encerra com a transição para a República, proclamada em 15 de novembro de 1889. Os banners explicam as mudanças na administração da cidade, quando a Câmara Municipal dá lugar à Intendência Municipal (que precedeu a Prefeitura), marcando o início de uma nova organização política e urbana.
História documentada
Por meio de documentos, imagens e análises, a exposição permite compreender como decisões políticas, econômicas e sanitárias moldaram a forma de morar e de viver na capital capixaba. A autora transformou esse acervo histórico em uma experiência acessível ao público, conectando o passado da cidade aos desafios contemporâneos de preservação do patrimônio urbano.
A exposição foi produzida com o material que a pesquisadora levantou para os dois livros recém-lançados: "Villa de Victoria - Habitação da Colônia ao Império" e "Cidade de Victoria - Habitação do Império à República".
A pesquisa que dá origem à exposição foi desenvolvida entre 2019 e 2021, como pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), com supervisão da professora Almerinda Lopes. Para construir a contextualização histórica, Luciana Nemer dialoga com autores capixabas e, principalmente, com documentação original do Fundo da Câmara Municipal de Vitória, sob a guarda do Arquivo Público Municipal -- material que, em grande parte, ainda era inédito para pesquisadores.
Exposição Villa de Victoria e Cidade de Victoria
O Arquivo Público Municipal fica na Rua Amélia da Cunha Ornella, 295, em Bento Ferreira.
Horário de atendimento ao público: de segunda a sexta-feira, das 9h às 18 horas, com agendamento prévio pelo email ageral@correio1.vitoria.es.gov.br.
