Imprensa
Mercado da Vila Rubim: Uma história que reflete as transformações de Vitória
Publicada em | Atualizada em
Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes
Todos os dias, milhares de pessoas chegam a Vitória pelo sul da ilha, atravessam a Avenida Elias Miguel e passam pelo Mercado da Vila Rubim sem perceber o legado de cultura e de tradições que ele representa. Funcionando há 97 anos, a história deste posto varejista e atacadista começa muito antes de sua inauguração; começa com a criação espontânea de um ponto de comércio próximo à foz dos rios Jucu e Santa Maria, em local perto do Centro.
Em uma pequena praia, com precários trapiches para pequenos barcos, na desprestigiada Cidade de Palha, nasce a vocação para a atividade comercial e para a criação do mercado que se tornaria o maior posto de abastecimento da cidade até os anos de 1980, quando surgem os "quilões", multiplicam-se os supermercados e esta modalidade de comércio não parou mais de se reconfigurar.
Esta história é contada por meio de documentos históricos, livros, projetos arquitetônicos e imagens preservadas no Arquivo Público Municipal de Vitória.
O começo na Cidade de Palha
Até o fim do século XIX, as águas da Baía de Vitória chegavam à Rua Pedro Nolasco e era comum ver crianças brincando na maré. Bem perto, acontecia uma movimentação comercial: pescadores da orla traziam seus pescados e pequenos barcos traziam mercadorias diversas do interior do Estado. O comércio era mais ligado às demandas dos moradores locais e imediações. A região era conhecida como Cidade de Palha, em referência às moradias simples, com casebres cobertos de palha.
Nessa época, a economia capixaba entrava em expansão, baseada principalmente no comércio cafeeiro, e havia necessidade de superar os pequenos cais e trapiches por uma estrutura adequada para embarcações maiores. Tem início, então, o aterro na orla para a construção do Porto de Vitória, em 1906. Nesse mesmo período, a Cidade de Palha ganha o nome de Vila Rubim, em homenagem ao coronel português Francisco Alberto Rubim, que governou a capitania do Espírito Santo, no período de 1812 a 1819.
Antigos cais davam lugar ao novo porto, a economia do Estado crescia e a capital necessitava de novos espaços - e novos aterros - e novos postos de abastecimento. Foi assim, integrado ao reordenamento urbano em torno da área portuária, que foi inaugurado, em 1928, o Mercado da Vila Rubim, ligado ao Mercado Municipal (atual Mercado da Capixaba).
O primeiro prédio
O prédio foi construído na praça onde, atualmente, funciona a feira livre. Possuía dois pavimentos: no primeiro piso, instalaram-se açougues e lojas de hortigranjeiros. No segundo, outros tipos de mercadorias e a administração.
O novo mercado, em estilo eclético, tinha entrada para a atual Rua Pedro Nolasco, enquanto o pavimento superior voltava-se para os fundos (a Avenida Duarte Lemos foi construída no final dos anos 50). Em pouco tempo, além de atender à comunidade local, passou a atender também parte dos moradores e comerciantes de Cariacica e Vila Velha. A Vila Rubim era um ponto de chegada de pequenos barcos que desciam pelos rios Santa Maria e Jucu, entrando na Ilha de Vitória, ou seja, o local de encontro entre os municípios de Vitória, Vila Velha e Cariacica.
"Coréia": a feira ao ar livre
Nos anos de 1950, foi necessário expandir o mercado para o final da Rua Pedro Nolasco, com cerca de 40 "boxes" para venda de peixes, frutas e legumes. Porém, os boxes nada mais eram que tabuleiros de madeira e as mercadorias eram vendidas a céu aberto, características de comércio de feira. Devido à grande movimentação de fregueses, às ofertas aos gritos dos vendedores, à frequência de delitos como furtos e brigas, o local foi apelidado de "Coréia".
Durante 40 anos, o Mercado da Vila Rubim funcionou nessa configuração comercial e se tornou o maior posto de abastecimento alimentício de Vitória, função que ainda será fortalecida com a desativação do Mercado da Capixaba.
A chegada dos galpões
Desde o início da década de 1960, já estavam em andamento obras de aterro para expansão do Porto de Vitória e da Vila Rubim. Nesse período, também aumentavam as demandas de espaço pelos comerciantes e tornava-se necessário facilitar o acesso para fornecedores dos municípios vizinhos e da Região Serrana. O antigo prédio e a Coreia não tinham capacidade para atender o crescimento do comércio.
Assim foi planejada a construção de um novo mercado, construído na forma de três galpões. As antigas barracas ganharam proporções inéditas para a época, com capacidade de reunir em espaços cobertos todos os comerciantes.
Os primeiros galpões foram construídos em 1968, no mesmo ano em que o antigo prédio foi demolido. Em 1969, foi inaugurado o Mercado da Vila Rubim, abrigando, inicialmente 100 boxes, destinados exclusivamente a hortifrutigranjeiros. Em 1970, o Mercado da Capixaba começa a ser desocupado do comércio alimentício e passa a recebendo novos usos.
Era de Ouro
Uma série de aterros foram realizados em Vitória na segunda metade do século XX, para modernizar e ampliar a área habitável da ilha. O aterro da Ilha do Príncipe, em 1970, sobre o canal que banhava a Vila Rubim, possibilitou a expansão do mercado e a reconfiguração da atividade comercial. Já não haveria embarque e desembarque de cargas e passageiros pelo cais ou pela praia. Haveria outra logística, com abertura de ruas e avenidas. Nessa época, foi construída a atual Rodoviária de Vitória.
O Mercado da Vila Rubim ampliou ainda mais seu papel no abastecimento de produtos primários, atendendo toda a Grande Vitória. Sobre o terreno do aterro, em 1976, foram construídos novos pavilhões, e o Mercado passou a desempenhar função de atacadista de hortigranjeiros, ganhando ainda mais importância. Em 1977, com a criação da Centrais de Abastecimento do Espírito Santo (Ceasa) em Cariacica, o Mercado suspendeu esta modalidade de negócio.
