Prefeitura de Vitória

Atalhos de teclado:

Catedral de Vitória: religiosidade, arte e memórias que atravessam gerações

Publicada em | Atualizada em

Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes


Arquivo Público Municipal
Drenagem da Rua José Marcelino - antiga Rua Grande - e Praça Dom Luiz Scortegagna
Drenagem da Rua José Marcelino - antiga Rua Grande - e Praça Dom Luiz Scortegagna.
Arquivo Público Municipal
Obras da Catedral e da Praça Dom Luiz Scortegagna
Obras da Catedral e da Praça Dom Luiz Scortegagna.

Um dos monumentos mais visitados do Centro Histórico da capital, a Catedral Metropolitana de Vitória, se destaca na paisagem por sua estrutura imponente, com elementos neogóticos e vitrais coloridos. O que poucas pessoas sabem é que a construção desse templo, erguido no lugar da antiga Igreja Matriz, integrou as ações de modernização cultural e social da cidade, ocorridas nas primeiras décadas do século XX.

O projeto da nova edificação envolveu nomes como Paulo Motta, o paisagista que idealizou o Parque Moscoso e a Praça Costa Pereira; o engenheiro Henrique de Novaes, que atuou no desenvolvimento da infraestrutura de várias capitais do Brasil; e André Carloni, que projetou e construiu o Theatro Carlos Gomes. Na era republicana, o estilo arquitetônico foi escolhido para romper com a memória colonial da matriz, marcar a presença da Igreja Católica na capital e simbolizar o progresso material da sociedade.

Foram 50 anos de obras na igreja, entre 1920 e 1971, e várias intervenções no entorno, como abertura de ruas e construção de escadarias, que podem ser reconstituídos graças aos documentos, imagens e projetos preservados no Arquivo Público Municipal. Relembrar esta história é resgatar legados que atravessam gerações de capixabas e reverenciar tradições que se projetam muito além do Espírito Santo, como a procissão anual em homenagem à padroeira do Estado, Nossa Senhora da Penha.

No alto da colina, avistada por toda a cidade

No início do século XX, as residências e os comércios de Vitória ocupavam, basicamente, o trecho entre a colina da Santa Casa de Misericórdia e as imediações do Morro do Vigia (Rua Barão de Monjardim). Nessa época, predominavam os casarios baixos, de forma que as edificações da Cidade Alta se destacavam na paisagem e eram avistadas pelas embarcações desde a entrada do canal da Baía de Vitória. Ilustrações, pinturas e fotografias antigas mostram como a antiga Igreja de São Thiago (atual Palácio Anchieta) e a Igreja Matriz ficavam em evidência em relação às demais construções.

O projeto de construção de uma nova igreja surge nesse período, em meio aos planos de higienização e embelezamento da cidade liderados por governantes como Muniz Freire e Jerônimo Monteiro. Vitória crescia com aterros e criação de bairros e jardins inspirados em tendências europeias. Essa foi a justificativa para substituir a Matriz, tipicamente colonial e muito simples para ser a sede da Diocese e para reunir autoridades locais e da República em celebrações oficiais.

O primeiro projeto foi elaborado pelo paisagista Paulo Rodrigues da Motta Teixeira, em 1913. Ele propôs uma igreja maior do que a antiga, seguindo linhas neogóticas -- a tendência da época -- e mantendo a fachada com apenas uma torre sineira. Foi dele a ideia dos arcos em forma de ogivas e dos vitrais. A Igreja Matriz foi demolida em 1918, e o início da nova edificação ocorreu em 1920.

Arquivo Público Municipal
Vista da Catedral Metropolitana a partir da Rua Alziro Viana
Vista da Catedral Metropolitana a partir da Rua Alziro Viana.
Arquivo Público Municipal
Celebração de missa na Catedral Metropolitana. Década de 1940
Celebração de missa na Catedral Metropolitana. Década de 1940.

André Carloni e a primeira missa, em 1933

Desde o início, a empreitada seria marcada por períodos de paralisação e retomadas. Apenas em 1930, os trabalhos ganharam mais constância, quando o construtor André Carloni assumiu a execução. Inspirado na Catedral de Colônia, na Alemanha, ele propôs várias alterações ao projeto, como a inserção da segunda torre sineira e o aumento das dimensões da igreja, incluindo a altura da nave e das torres pontiagudas.

Também são de autoria de Carloni a abertura de portas laterais e a execução da Capela do Santíssimo Sacramento e da sacristia. A composição da nave em cruz latina e a elevação da parte frontal do presbitério também foram projetadas por André Carloni. Com essas alterações, foi necessário deslocar os vitrais e, assim, foram criados os jogos de luz que tanto encantam os frequentadores. A claridade que entra pelos vitrais varia de ângulo ao longo do dia e das estações do ano.

Pouco a pouco, surgia a Catedral com suas torres, pináculos, rendilhados, arcos, abóbadas e vitrais. A primeira missa foi celebrada em 1933, inaugurando o interior do templo.

O entorno da igreja também ganhou um novo arruamento. A antiga Rua da Matriz foi alargada, expandida e renomeada como Rua Pedro Palácios, servindo de ligação entre a Praça João Clímaco (centro administrativo) e a Catedral (centro religioso). O trecho iniciado na Escadaria Maria Ortiz foi ampliado até a Praça Costa Pereira e recebeu o nome de Dionísio Rosendo. E a antiga Rua do Egito deu lugar à Rua José Marcelino.

Muitas campanhas de arrecadação de recursos possibilitaram a continuidade das obras, embora novas paralisações tenham ocorrido. Em 1953, foram instalados os sinos, que eram tocados manualmente (atualmente, são acionados por meio eletrônico). Somente em 1971, a Catedral de Vitória estaria definitivamente concluída. E, em 1984, foi tombada pelo Conselho Estadual de Cultura.

Vitrais que expressam arte, religiosidade e memória

Os vitrais são característicos das artes góticas e ganharam espaço nos templos cristãos entre os séculos XII e XIV. Nas catedrais, os vidros fundidos ao chumbo e ao cobre permitem a entrada de luz, contrastam com as colunas de pedra e estabelecem uma relação mais estreita com o sagrado, a partir dos desenhos que representam personagens e histórias bíblicas.

A Catedral de Vitória é um importante exemplo da retomada da arte do vitral no Brasil no início do século XX. As peças da igreja foram executados por César Alexandre Formenti, artesão italiano, natural de Ferrara, que chegou ao Brasil em 1890. Seus trabalhos mais conhecidos estão no Rio de Janeiro, como as claraboias do Salão Nobre do Clube Naval e da atual Câmara de Vereadores e um vitral e duas capelas realizadas para a Igreja da Candelária.

No início do século XX, era comum que os vitrais seguissem modelos já consagrados ou referências tradicionais, em lugar de buscarem originalidade e ineditismo. Formenti, como outros vitralistas, buscou por modelos presentes em altares da Basílica de São Pedro, em Roma, que eram reconhecidas pelo próprio Papa Pio XI como exemplos da "verdadeira arte". Esse fato pode explicar a sensação de familiaridade com as imagens dos vitrais, relatada por muitos visitantes.

A produção dos vitrais encomendada ao artesão italiano ocorreu entre 1933 e 1943. Deste período são 17 dos 23 vitrais em formato de ogivas existentes na Catedral de Vitória. Para obter essas obras de arte, a Diocese contou com a colaboração de doadores, cujos nomes estão gravados nas próprias peças. O maior dos vitrais, "Santa Cecília e os anjos" (300x500cm), que fica na fachada principal da igreja, foi doado pelo Governo do Estado.

São criações de Formenti os que se encontram nos principais espaços litúrgicos da Catedral: nave, coro, guarda-vento, transepto e presbitério. Eles representam cenas bíblicas, figuras de santos e símbolos da fé cristã. Destacam-se os que estão ao longo da nave, como a "Aparição de Cristo a Santa Margarida Maria Alacoque" (180x700cm), "Nossa Senhora com o Menino Jesus abençoando Santa Terezinha", "Nossa Senhora do Líbano" e "Nossa Senhora do Rosário e de Pompeia", esses três com 150x700cm. Já no altar-mor, estão os vitrais dedicados aos quatro evangelistas: São Marcos, São João Evangelista, São Lucas e São Mateus, todos com 150x700cm.

Ao final da década de 1960, outros seis vitrais foram acrescentados à Catedral. Eles apresentam estilo diferente dos produzidos por Formenti e não trazem as inscrições com os nomes dos doadores. Esses estão localizados na Capela do Santíssimo Sacramento e em dependências conhecidas como Farmácia e apresentam temas como a instituição da Eucaristia, o milagre dos pães e dos peixes, o batismo e cenas da vida de Jesus.

Referências

ESPÍRITO SANTO (Estado). Arquitetura: Patrimônio Cultural do Espírito Santo. Vitória: Secult, 2009. Disponível em: https://secult.es.gov.br/Media/secult/patri/%20Catalogo%20do%20Patrim%C3%B4nio%20Arquitet%C3%B4nico.pdf. Visitado em 05/01/2026

LIMA, Mônica Cardoso de. Os vitrais da Catedral de Vitória-ES e seus doadores nas décadas de 1930 e 1940. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Artes, 2009. Disponível em: https://sappg.ufes.br/tese_drupal//tese_3708_PDF-%20Disserta%E7%E3o%20Os%20vitrais%20da%20catedral%20de%20Vitoria%20ES%20e%20seus%20doadores%201930%201940%20Monica%20C%20Lima.pdf. Visitado em 13/01/2026

LIMA, Bruno de Oliveira. Reconciliação urbana: análise simbólica da paisagem da Vila da Vitória (Séc. XVI-XVIII). Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Artes, 2013. Disponível em: https://ape.es.gov.br/Media/ape/PDF/Disserta%C3%A7%C3%B5es%20e%20Teses/ARQUITETURA%20E%20URBANISMO/UFES_PPGAU_BRUNO_OLIVEIRA_LIMA.pdf. Visitado em 13/01/2026

Arquivo Público Municipal
Catedral Metropolitana, interior da nave. Década de 1940
Catedral Metropolitana, interior da nave. Década de 1940.
Jansen Lube
Catedral Metropolitana de Vitória
Catedral Metropolitana de Vitória na atualidade. (ampliar)