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Você Conhece a história da Matriz de N. Sª. da Vitória? Saiba mais sobre esse marco da cidade!

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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes


Arquivo Público Municipal
Construção do Palácio Domingos Martins, Praça João Clímaco e Igreja Matriz ao fundo. 1911.
Construção do Palácio Domingos Martins, Praça João Clímaco e Igreja Matriz ao fundo. 1911.
Arquivo Público Municipal
Altar-mor da antiga Igreja Nossa Senhora da Vitória
Altar-mor da antiga Igreja Nossa Senhora da Vitória.

Muito antes da atual Catedral Metropolitana de Vitória, com sua arquitetura eclética, elementos neogóticos e vitrais que encantam moradores e turistas, existiu ali mesmo, na Cidade Alta, uma igreja bem mais antiga: a Matriz de Nossa Senhora da Vitória. Construída entre 1550 e 1552, a igreja foi, durante cerca de 400 anos, o centro político, religioso e social da Vila de Vitória e acompanhou transformações históricas profundas, como a transição para os períodos do Império e da República, testemunhando mudanças na vida cotidiana dos capixabas.

Demolida em 1918 para dar espaço à construção da Catedral, a antiga matriz é um exemplo da transformações de monumentos que ajudaram a construir a identidade coletiva de nossa sociedade em tempos remotos. Relembrar essa trajetória é importante para entender como o crescimento da cidade nos últimos séculos impulsionou novas configurações sociais e culturais.

Esta história é contada por meio de fotografias e documentos preservados no Arquivo Público Municipal de Vitória. Também foram consultadas obras bibliográficas produzidas, em parte, a partir de pesquisas realizadas no Arquivo Municipal.

Religiosidade na ocupação do território capixaba

A Igreja de Nossa Senhora da Vitória foi a primeira igreja e uma das mais importantes da cidade durante quase 400 anos. Simples no aspecto estético, ela integrava um importante conjunto arquitetônico religioso, composto ainda pelo Colégio dos Jesuítas (atualmente, Palácio Anchieta) e pela Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia (demolida, deu lugar ao Palácio da Cultura Sônia Cabral), no Centro Histórico. Esses três monumentos expressavam a forte presença da religião católica na ocupação do solo capixaba.

A Matriz foi construída em um contexto de pronfunda ligação entre a Coroa Portuguesa e a Igreja Católica. Na época, o governo português custeava a construção dos templos, a manutenção dos cultos e os salários dos vigários e bispos, que eram considerados funcionários públicos. Em troca, ficava com os dízimos. O período de construção da igreja corresponde ao da fundação da Vila de Vitória (1551) e ao registro dos primeiros padres capixabas seculares, como Francisco da Luz, em 1550, e Pero dos Santos, em 1552.

Naquele tempo, como funcionários do governo, o bispo e os vigários, além de suas obrigações religiosas, orientavam o comportamento e as condutas da sociedade, que eram apontados como cheios de "vícios e pecados". As celebrações eram frequentadas pelas autoridades locais, funcionários públicos, senhores de posses e pessoas livres (não escravizadas); enquanto os batismos e sepultamentos eram permitidos apenas para os nobres e governantes.

Posição de destaque na cidade

Em estilo colonial, com influências barrocas, a matriz foi construída sobre uma área elevada, em uma posição de destaque na cidade, como era comum na época. Construída com paredes de pedra, barro e cal, a antiga igreja não era imponente, mas acomodava bem a população local nas missas rotineiras e em eventos importantes.

Tinha 120 palmos de comprimento por 60 palmos de largura. A altura do telhado era de 20 palmos. Sim, o palmo era a unidade de medida utilizada naquele tempo. A conversão em metros aponta para uma área construída de aproximadamente 350 m2 e cerca de 4,4 metros de altura.

A igreja tinha o formato retangular simples e, acoplada à fachada, uma torre com sino. No interior, a ornamentação era simples, com exceção do altar-mor, onde ficava a imagem de Nossa Senhora da Vitória. Havia vários altares: Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora das Dores, São José, Santo Antônio, São João e o da Capela do Santíssimo Sacramento. Em frente à igreja, havia uma área chamada Largo da Matriz, onde também se situar um pequeno cemitério.

Em 1726, o vice-rei Vasco Fernandes César de Meneses orçou em 10.000 cruzados a reconstrução e ampliação da matriz, que já se encontrava em mau estado de conservação. Em 29 de agosto de 1731, o rei D. João V ordenou a execução das obras, com a separação de 1 mil cruzados do valor dos dízimos por ano para concretizá-las. A execução só foi iniciada 1749 e as obras duraram décadas.

Testemunha de grandes acontecimentos

Foi na Igreja Matriz que as autoridades capixabas fizeram o juramento à Constituição Portuguesa, em 1821, quando o rei Dom João VI retornou a Portugal. Em 19 de abril de 1824, Vitória assistiu ao juramento da Constituição do Império, outorgada por D. Pedro, como em todos os atos solenes da época, na antiga igreja. As cerimônias eram presenciadas pelo moradores e dirigidas a integrantes da Câmara Municipal e corporações civis, eclesiásticas e militares.

Já em 1860, durante a visita de D. Pedro II à província do Espírito Santo, a igreja matriz não foi visitada, devido à decadência física em que se encontrava. Com a Proclamação da República, em 1889, houve a separação entre o Estado e a Igreja Católica e os custos com as construções, manutenções, festas e procissões deixaram de sair dos cofres públicos. A situação do imóvel ficou ainda mais precária.

Maior e mais imponente: nasce a Catedral

Em 1895, o padre Eurípides Calmon Nogueira da Gama Pedrinha descreve a situação da igreja como "Em misero estado, desde o telhado até a sachristia tudo desconcertado, tudo lixoso e imundo". Ele faz campanhas para a reforma da igreja e também para o retorno à prática religiosa da população.

As ações surtem efeito e, no mesmo ano, é criada a Diocese do Espírito Santo, é nomeado o primeiro bispo, Dom João Batista Correia Nery, e a igreja recebe o título de Catedral. A nova Catedral ainda passou por uma nova reforma em 1902, pelo segundo bispo do Espírito Santo, Dom Fernando de Souza Monteiro.

Em 1912, o Governo do Estado mandou celebrar exéquias solenes na matriz pelo trigésimo dia do falecimento do Barão de Rio Branco. Como se sabe, o barão foi Ministro das Relações Exteriores e é considerado como o patrono da diplomacia brasileira. Suas exéquias foram realizadas em todas as capitais brasileiras, em Lisboa e várias capitais europeias. Na Igreja de Nossa Senhora da Vitória, segundo os jornais da época, a cerimônia foi "extraordinariamente concorrida, tendo ficado repleto o vasto templo

Porém, em 1917, a Diocese decide-se favorável à demolição da antiga matriz e à construção de um novo templo, maior e em um estilo arquitetônico considerado mais apropriado, mais imponente. Assim, a antiga igreja foi demolida no bispado de D. Benedito Paulo Alves de Souza (1918-1932), no dia 6 de julho de 1918. A construção da atual Catedral Metropolitana de Vitória foi iniciada, no mesmo local, em 1920.

Referências

https://morrodomoreno.com.br/materias/logradouros-antigos-de-vitoria-por-serafim-derenzi.html. Visitado em 29/12/2025

OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo. 3 ed. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo: Secretaria de Estado da Cultura, 2008. Disponível em https://ape.es.gov.br/Media/ape/PDF/Livros/Livro_Historia_ES.pdf. Visitado em 02/01/2025.

SCABELLO, Joana Segatto. O resgate e o (re)conhecimento da imagem da antiga Matriz de Vitória por meio de sua reconstrução digital 3D. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) -- Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Artes, Vitória, 2021. Disponível em https://sappg.ufes.br/tese_drupal//tese_15312_Disserta%E7%E3o%20-%20Joana%20Segatto%20Scabelo.pdf. Visitado em 02/01/2025.

Arquivo Público Municipal
O grupo escolar Gomes Cardim em frente da Catedral, nas exéquias do Barão do Rio Branco. 1912
Grupo escolar Gomes Cardim em frente da Catedral, nas exéquias do Barão do Rio Branco. 1912
Arquivo Público Municipal
Interior da antiga Catedral de Vitória com o catafalco do Barão do Rio Branco. 1912
Interior da antiga Catedral de Vitória com o catafalco do Barão do Rio Branco, em 1912. (ampliar)