Quem já viu um negativo de vidro com mais de 100 anos? No Arquivo Municipal de Vitória, 117 lâminas guardam imagens da cidade do início do século XX, entre as décadas de 1900 e 1930. Alguns desses cenários já nem existem mais, como o Teatro Melpômene, demolido para dar lugar à Rua 7 de Setembro; a entrada para o antigo orquidário do Parque Moscoso e a Ilha do Príncipe antes dos aterros.
Há lâminas com vistas aéreas de uma Vitória antiga, feitas para projetos de intervenção urbana e planejamento de aterros, e há registros de obras governamentais, feitos a título de acompanhamento, prestação de contas e relatórios de governo. Essas peças da rotina administrativa, algumas produzidas há mais de 100 anos, tornaram-se arquivos históricos preciosos.
Vida nova com técnicas de digitalização
Para dar vida às imagens registradas nas placas de vidro, era preciso levar as lâminas para uma câmera escura (laboratório) e mergulhá-las em uma solução química, um processo parecido com a revelação dos filmes de rolo. Atualmente, para preservar os registros nas placas, não é permitido submetê-las a nenhum procedimento químico.
Por outro lado, as técnicas atuais de digitalização, com apoio de uma mesa de luz e a inversão das cores por meio de programas de computador, possibilitam a reprodução, o tratamento e a recuperação das imagens. O Arquivo Público Municipal já digitalizou e cadastrou algumas destas fotografias, visualizando uma promessa de vida nova para estes tesouros.
No acervo, encontram-se negativos de vidro em placas secas de diferentes tamanhos: 84 peças de 24x18cm; 26 de 12x9cm; e 7 de 9x6cm.
Arquivo Público Municipal
Arquivo Público Municipal
Preservação
A preservação dessa coleção tão frágil exige técnicas e materiais específicos. Cada placa é embalada em duas camadas de papel neutro, parecido com papel de seda, e acondicionada em um envelope individual de papel cartão. Uma quantidade de envelopes é reunida em pequenas caixas de arquivo, que recebem divisórias acartonadas para maior proteção das placas. As caixas de arquivo são guardadas em local refrigerado e protegido de luz. E a manipulação desse material é exclusividade da equipe do Arquivo Municipal.
Técnica inovadora no século XIX
Desenvolvidos a partir de 1871, os negativos de vidro em placa seca (dry plate) representaram uma inovação para a fotografia. As tecnologias anteriores, como o daguerreótipo e a placa úmida (wet plate), exigiam a manipulação química imediatamente antes e depois da captura da imagem, ou seja, exigiam um laboratório móvel, mais tempo, planejamento e muitas limitações. Já as placas secas eram pré-emulsionadas, industrializadas e vendidas prontas para o uso. Isso facilitou o manuseio, permitiu a produção em escala industrial e tornou a fotografia mais acessível e rápida.
No entanto, logo surgiram outras técnicas, como o filme flexível de nitrato de celulose, os negativos de acetato de celulose e os filmes de rolo, que se popularizaram nos anos 1920-1930. Os filmes de rolo 35mm revolucionaram a fotografia amadora e profissional, ao possibilitarem a criação das câmeras portáteis e mais acessíveis, evoluíram para as fotos em cores e imperaram no mercado até a chegada da tecnologia digital.
Assim, os negativos de vidro, tais como as câmeras de fole, deixaram de ser fabricados e comercializados e se tornaram raros. No entanto, as imagens captadas nas placas secas utilizadas pela Prefeitura de Vitória estão preservadas e são testemunhas históricas de um período em que a fotografia era, ao mesmo tempo, documento administrativo, ciência e arte.